CUBA NO ESCURO - Sanções, energia e a seletividade da compaixão internacional

Crédito: Silvio Tanaka/Flickr

Entre apagões, escassez e isolamento, a crise cubana expõe um padrão recorrente da ordem internacional: a subordinação da resposta humanitária a interesses estratégicos – um mecanismo já visível em episódios históricos da Ásia, da África e da América Latina

Celso Pinto de Melo

“A crise não é apenas humanitária –
é também uma crise de consciência internacional.”
Indira Gandhi (1971)

Introdução

Há mais de seis décadas, Cuba vive sob um regime contínuo de sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, que, na prática, opera como um bloqueio abrangente ao acesso a mercados, crédito, tecnologia e energia. Não se trata apenas de mais uma política externa, mas de um mecanismo estrutural que condiciona, de forma persistente, as condições materiais de vida de uma população inteira.

Em março de 2026, esse quadro voltou a se manifestar de forma aguda após o endurecimento das sanções pelo Governo Trump: o sistema elétrico nacional entrou em colapso, deixando milhões de pessoas sem energia e afetando diretamente hospitais, cadeias de abastecimento e serviços essenciais. Mais do que um episódio isolado, trata-se da expressão visível de um processo cumulativo de restrições.

O que chama a atenção, contudo, não é apenas a gravidade da situação, mas, em especial, sua posição periférica no debate internacional. Essa relativa indiferença não é acidental. Ela remete a um padrão mais amplo: a existência de uma compaixão seletiva, na qual nem todas as vidas mobilizam o mesmo grau de urgência.

Cuba: uma crise multidimensional

A situação cubana resulta de uma combinação de fatores internos e externos. Entre os primeiros, destacam-se as limitações produtivas persistentes, a infraestrutura envelhecida e as restrições macroeconômicas.

No entanto, ignorar o papel das sanções equivale a desfigurar a própria natureza da crise: trata-se de um bloqueio de longa duração que restringe sistematicamente as capacidades básicas de funcionamento econômico do país.

Desde a década de 1960, o embargo foi progressivamente ampliado, incorporando mecanismos extraterritoriais que dificultam as operações financeiras, o acesso a crédito e o comércio com terceiros países[1].

Seus efeitos são concretos: apagões recorrentes, escassez de medicamentos, dificuldades crescentes no acesso a alimentos – que, em determinados contextos, assumem contornos de insegurança alimentar aguda, além de episódios localizados de fome, como resultado de graves restrições logísticas.

Não se trata, portanto, de uma crise súbita, mas de um processo prolongado de asfixia.

A seletividade como padrão histórico

Ao longo do século XX – e no início do século XXI – acumulam-se exemplos eloquentes de crises humanitárias amplamente reconhecidas e, ainda assim, tratadas de forma seletiva.

Durante a Fome de Bengala de 1943, cerca de 2 a 3 milhões de pessoas morreram sob domínio colonial britânico. A fome foi causada não apenas pela perda das importações de arroz após a ocupação japonesa da Birmânia, mas também pela inflação descontrolada, especulação e falhas deliberadas nas políticas públicas da administração imperial[2][3].

O contraste é difícil de ignorar: enquanto milhões de indianos morriam de fome, tropas recrutadas na própria Índia eram mobilizadas para combater em diferentes frentes da Segunda Guerra Mundial. A tragédia não foi invisível – foi subordinada às prioridades do Império.

Na guerra de Biafra (1967–1970), o governo nigeriano impôs um bloqueio ao território separatista, impedindo a entrada de alimentos e medicamentos. Entre 1 e 2 milhões de pessoas morreram, sobretudo por fome e doenças associadas[4].

Em Timor-Leste, após a invasão pela Indonésia em 1975, deslocamentos forçados, fome e colapso produtivo levaram à morte de cerca de 100 a 200 mil pessoas[5].

Na Guatemala, sobretudo no período 1978–1983, a situação foi particularmente dura para as populações maias. Estima-se que o conflito armado interno tenha resultado em cerca de 200 mil mortos e desaparecidos, sendo a maioria indígenas[6]. A Comissão para o Esclarecimento Histórico concluiu que o Estado e grupos paramilitares foram responsáveis por aproximadamente 93% das violações documentadas e que ocorreram atos de genocídio contra povos indígenas.

Na Bósnia, nos anos 1990, a Europa assistiu à limpeza étnica em seu próprio território, no contexto da dissolução da Iugoslávia. O massacre de Srebrenica, em 1995, ocorreu quando forças sérvio-bósnias – majoritariamente associadas à população sérvia de tradição cristã ortodoxa – executaram mais de 8 mil homens e meninos bósnios muçulmanos, em uma operação posteriormente reconhecida como genocídio pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia[7].

O episódio expõe um aspecto incômodo: nem mesmo no espaço europeu – frequentemente apresentado como referência normativa em direitos humanos – a resposta internacional esteve imune à lógica da seletividade, especialmente quando as vítimas não pertenciam ao núcleo dominante do sistema político e cultural. A demora em reconhecer a gravidade dos acontecimentos e em agir de forma proporcional sugere que, mesmo em contextos centrais, a identidade das vítimas continua a influenciar o ritmo e a intensidade da resposta internacional.

Em Ruanda, em 1994, cerca de 800 mil pessoas foram assassinadas em poucos meses. O genocídio foi perpetrado por extremistas hutus contra a população tutsi, além de hutus moderados. Diferentemente do caso bósnio, a distinção central era étnico-política, e não religiosa, já que tanto hutus quanto tutsis eram, em sua maioria, cristãos (principalmente católicos). A comunidade internacional, embora plenamente informada, tratou inicialmente o genocídio como “conflito interno”, o que contribuiu para a ausência de intervenção efetiva[8].

A esse quadro somam-se as ditaduras de segurança nacional na América do Sul – no Brasil, Chile, Argentina e Uruguai – responsáveis por dezenas de milhares de mortos, desaparecidos e torturados ao longo das décadas de 1960 a 1980. Embora de natureza distinta dos conflitos anteriores, esses regimes também se beneficiaram de um ambiente internacional permissivo, no qual violações sistemáticas de direitos humanos foram frequentemente relativizadas em nome de alinhamentos ideológicos e estratégicos.

Em cada um desses casos, as circunstâncias específicas variam, assim como os atores e os contextos geopolíticos. Ainda assim, um traço comum persiste: diante de determinadas tragédias, a resposta internacional foi retardada, limitada ou seletivamente modulada – muitas vezes porque era mais conveniente, do ponto de vista estratégico, “olhar para o outro lado”.

Esses episódios, embora distintos – e absolutamente incomparáveis com o genocídio sistemático perpetrado pelo regime nazista contra populações consideradas racialmente inferiores, cuja singularidade histórica permanece incontestável –, revelam, ainda assim, um padrão recorrente: a desigual valorização das vidas humanas no sistema internacional.

1971 e a denúncia de um padrão

Foi nesse contexto mais amplo que, já em 1971, a então primeira-ministra da Índia, Indira Gandhi, articulou uma crítica direta à resposta internacional diante da crise no Paquistão Oriental, que culminaria na criação de Bangladesh.

Diante de milhões de refugiados e de relatos consistentes de violência contra civis, Gandhi denunciou a hesitação das potências ocidentais em confrontar o governo paquistanês – uma hesitação que, em sua leitura, não podia ser dissociada do alinhamento estratégico do Paquistão no contexto da Guerra Fria.

Sua intervenção antecipava um diagnóstico que permanece atual: a existência de uma hierarquia implícita de vítimas no sistema internacional. Algumas crises mobilizam rapidamente recursos, atenção e pressão diplomática; outras, mesmo amplamente documentadas, permanecem em uma zona de ambiguidade, onde a resposta é retardada, limitada ou fragmentada.

Entre Ormuz, Gaza e Cuba: a geopolítica da indignação seletiva

Essa lógica torna-se particularmente evidente quando colocamos lado a lado diferentes situações contemporâneas.

O bloqueio potencial do Estreito de Ormuz é tratado como uma ameaça sistêmica intolerável, capaz de justificar respostas imediatas.

Na Faixa de Gaza, especialmente no contexto da guerra entre Israel e o Hamas iniciada após os ataques de 7 de outubro de 2023, as operações militares de larga escala conduzidas pelas forças israelenses levaram à destruição de infraestrutura civil e restrições severas ao acesso a alimentos, água e medicamentos, produzindo uma crise humanitária de grande escala, com mais de 70.000 mortos – em sua maioria mulheres e crianças –, segundo estimativas amplamente divulgadas por autoridades locais e organismos internacionais[9][10]. A OMS registrou episódios de fome no território; agências da ONU alertaram para a fragilidade da situação; apesar disso, restrições ao acesso humanitário continuam a ser reportadas.

Nesses contextos, a linguagem internacional frequentemente se desloca: a urgência dá lugar à cautela.

Em última instância, a pergunta que se impõe é se todas as vidas têm o mesmo peso político – uma resposta que, não raramente, se revela atravessada por geopolítica, poder e, por vezes, até pela cor da pele.

Cuba no contexto dessa gramática internacional

No caso de Cuba, o paralelo é distinto – mas real.

Não se trata de guerra aberta, mas de um estrangulamento econômico e energético prolongado, com efeitos diretos sobre a população civil.

Em 2025, a Assembleia Geral da ONU aprovou, por 165 votos a 7, uma resolução pedindo o fim do embargo[11]. Não se trata de um posicionamento pontual: desde 1992, a Assembleia aprova anualmente resoluções semelhantes, somando mais de três décadas de condenações praticamente ininterruptas ao bloqueio.

Mas o bloqueio continua como fator agravante decisivo. Apagões, escassez de medicamentos, dificuldades de abastecimento e aumento da vulnerabilidade social configuram um quadro persistente de sofrimento estrutural.

A ausência de espetacularização contribui para sua invisibilidade: crises lentas tendem a ser normalizadas – e, por isso mesmo, politicamente desmobilizadas.

E há uma contradição adicional.

Cuba desenvolveu um dos mais amplos programas de cooperação médica internacional do mundo. Profissionais cubanos atuaram na África, na América Latina e na Europa durante a pandemia.

O contraste é eloquente: um país que envia médicos para atender populações vulneráveis no exterior enfrenta, em seu próprio território, uma crise que o sistema internacional prefere tratar como pano de fundo.

O duplo padrão como estrutura

A relação entre esses casos pode ser sintetizada de forma direta: quando populações civis fora do eixo central do poder sofrem, o sistema internacional frequentemente distingue entre vítimas “estratégicas” e “descartáveis”.

Em alguns casos, isso se traduz em apoio direto; em outros, em omissão; em outros ainda, em sanções cujos efeitos humanitários são conhecidos – e aceitos.

O silêncio como escolha

A crise cubana não passa despercebida. Ela é visível – mas não mobilizadora.

Se a defesa de princípios universais passa a depender de sua compatibilidade com interesses estratégicos, eles deixam de ser, na prática, universais.

Nesse sentido, a compaixão seletiva não é uma falha, mas um traço constitutivo do sistema internacional.

E o silêncio, longe de ser neutro, é uma forma ativa de escolha.


Celso Pinto de Melo é professor Titular Aposentado da UFPE – Pesquisador 1A do CNPq – Membro da Academia Brasileira de Ciências.


[1] United Nations General Assembly, Necessity of ending the economic, commercial and financial embargo imposed by the United States of America against Cuba (A/RES/78/7). 2023. https://digitallibrary.un.org/record/3993964?v=pdf.

[2] Sen, A., Poverty and Famines: An Essay on Entitlement and Deprivation. 1981, Oxford: Oxford University Press.

[3] Mukerjee, M., Churchill’s Secret War: The British Empire and the Ravaging of India during World War II. 2010, New York: Basic Books.

[4] De Waal, A., Famine Crimes: Politics and the Disaster Relief Industry in Africa. 1997, Oxford: James Currey.

[5] Commission for Reception, Truth and Reconciliation in East Timor, Chega! Final Report. 2005: Dili. https://www.etan.org/news/2006/cavr.htm.

[6] Commission for Historical Clarification, Guatemala: Memory of Silence. 1999: Guatemala City. https://www.aaas.org/sites/default/files/s3fs-public/mos_en.pdf

[7] Prosecutor v. Radislav Krstic (Appeals Judgement, Case No. IT-98-33-A). 2004. https://www.icty.org/x/cases/krstic/acjug/en/krs-aj040419e.pdf.

[8] United Nations, Report of the Independent Inquiry into the Actions of the United Nations during the 1994 Genocide in Rwanda (S/1999/1257). 1999: New York. https://www.securitycouncilreport.org/atf/cf/%7B65BFCF9B-6D27-4E9C-8CD3-CF6E4FF96FF9%7D/Chap%20VII%20S%201999%201257.pdf.

[9] Aldabbour, B. e B. Irfan, From enumeration to inference: what the Gaza Mortality Survey reveals—and misses—about counting deaths in the Gaza Strip. The Lancet Global Health, 2026. 14(4): p. e480–e482.

[10] United Nations Office for the Coordination of Humanitarian Affairs, Gaza Situation Report (selected reports). 2025. https://www.ochaopt.org/publications/situation-reports.

[11] United Nations General Assembly, Necessity of ending the economic, commercial and financial embargo imposed by the United States of America against Cuba (A/RES/78/7). 2023. https://digitallibrary.un.org/record/3993964?v=pdf.

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