Dissonância cognitiva e má-fé

Imagem: Niki Nagy

Por LUIS FELIPE MIGUEL*
aterraeredonda.com.br/

Eu continuo achando que o dever do professor é formar seus estudantes em contato com tudo aquilo que é relevante na disciplina, gostemos ou não. E que a vitória, no debate de ideias, vem dos melhores argumentos, não do silenciamento dos adversários

1.

Leandro Colling publicou um ataque em regra contra um texto meu do qual o site A Terra é Redonda havia republicado uma parte. O texto completo saiu no substack Amanhã Não Existe Ainda (veja aqui).

Há tempos que o sr. Leandro Colling me ataca em toda a oportunidade que tem. Não sei por quê; creio que coincidi com ele em um único evento, duas décadas atrás. Minha animadversão não é à sua pessoa, mas às suas posturas. O tipo de docente que acha que faz algo muito transgressor ao batizar seu grupo de pesquisa de “Cus”. Maduro, não é mesmo?

Neste último ataque, ele me atribui uma série de posições que não são as minhas. No texto, eu digo que o problema dos identitários extremados, dos quais o sr. Leandro Colling é um exemplar, não é desonestidade intelectual, mas dissonância cognitiva. Prefiro continuar acreditando nisso.

Não vou responder ao que ele diz. Indico apenas a leitura do meu texto. Se uma pessoa não consegue entender que um professor socialista e marxista possa colocar Friedrich Hayek na bibliografia de seus cursos, não há o que fazer. Eu continuo achando que o dever do professor é formar seus estudantes em contato com tudo aquilo que é relevante na disciplina, gostemos ou não. E que a vitória, no debate de ideias, vem dos melhores argumentos, não do silenciamento dos adversários.

O sr. Leandro Colling afirma que nunca defendeu que os professores que discordam de sua cartilha identitarista fossem denunciados nas ouvidorias das universidades. “Eu apenas disse que isso já está acontecendo”, escreve ele. Aqui, fica difícil sustentar a interpretação caridosa da dissonância cognitiva.

O artigo dele a que me referi é uma diatribe contra quem defende o método científico e a argumentação racional. Cita muita gente e me inclui na lista, de uma maneira um tanto forçada, já que sou o único, salvo engano meu, atacado não por ter publicado um livro ou um artigo sobre o assunto, mas por referências laterais em obras sobre outros temas e por postagens nas redes sociais. Ele faz um resumo particularmente descabido de um vídeo meu – fiquei triste ao perceber que, embora tenha tentado ser o mais didático possível, ainda assim não fui compreendido.

2.

Embora seja raso, o artigo de Leandro Colling vai num crescendo: primeiro, constrói a indignação contra os intelectuais insensíveis que questionam a validade científica das vertentes identitárias; em seguida, apresenta a categoria do “assédio epistemológico” como ferramenta de combate. No parágrafo final, temos o clímax.

Eu evitava citar diretamente, porque é escrito numa novilíngua orwelliana, exigindo muitas ressalvas e explicações, mas vamos lá. Aponto apenas que, quando ele fala de “identitários”, está se referindo àquilo que todas as outras pessoas chamam de “críticos do identitarismo”, numa tentativa de confundir o leitor. E que a lista que aponta “pesquisadores/as dos estudos feministas, queer, trans, negros e decoloniais da atualidade” como alvo é marota, como se a crítica fosse às áreas de estudo, não às abordagens solipsistas e misticizantes dentro delas.

Mas vamos à citação do parágrafo final: “Esse tipo de assédio já está chegando nas ouvidorias de nossas universidades. Isso porque vários docentes partidários do ‘identitarismo’ têm produzido sistemáticos ataques, calúnias e difamações aos/às pesquisadores/as dos estudos feministas, queer, trans, negros e decoloniais da atualidade”.

No artigo do sr. Leandro Colling é indicado um problema; é apresentada a solução; é relatado que a solução tem sido aplicada. Não é preciso ser um gênio da interpretação de texto para entender o que está sendo proposto.

Imaginem se um pastor fundamentalista diz que certas pessoas são uma abominação (gays, feministas, comunistas, pouco importa), depois aponta qual é a arma para exterminá-las e termina anunciando que a arma já está sendo usada. Não vamos julgar que ele está defendendo o extermínio destes grupos?

Talvez o recuo indicado agora signifique que ele está repensando sua adesão a esta estratégia persecutória. Quem sabe? (Sou um esperançoso.)

O sr. Leandro Colling também reclama que eu o chamei de charlatão. Não é verdade. Não conheço o trabalho científico dele; nunca tive o prazer de lê-lo. O que digo apenas é que a postura de afirmar a intocabilidade de pretensas epistemologias alternativas, que seriam blindadas de críticas por estarem, também pretensamente, vinculadas a grupos subalternos, que é a postura dele, protege o charlatanismo na universidade.

*Luis Felipe Miguel é professor titular de ciência política na Universidade de Brasília (UnB). Autor, entre outros livros, de Democracia na periferia capitalista: impasses do Brasil (Autêntica) [https://amzn.to/45NRwS2].

"A leitura ilumina o espírito".

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