Os judeus que dizem não ao sionismo

Crédito: Sean Gallup / Getty

Reflexões sobre um deslocamento político e afetivo. O esforço para enfrentar as pressões da comunidade, superar o vitimismo e tornar-se antissionista. A leitura crítica dos fatos e narrativas dissidentes. A penosa superação do álibi do Holocausto


MAIS:
Texto em três partes. As próximas serão publicadas em 18 e 20/5

Eu fui um jovem atraído pelo espírito do israelismo e hoje, aos 38 anos, chego ao ponto final da dissociação entre minha identidade judaica e o sionismo. Essa jornada pessoal, vivida também por outros judeus, não começou em outubro de 2023, mas foi certamente acelerada pelo que se sucedeu desde então. Este ensaio, dividido em três partes, trata da dolorosa, mas libertadora desconstrução do sentimento de conexão com Israel que todo judeu diaspórico aprende a sentir desde pequeno. E traz também a esperança de incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo.

Para quem tem parentes, amigos e memórias afetivas em Israel, o primeiro sentimento após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 foi o de choque. As imagens que surgiam eram fortes e você pensa em quem mora lá. Mas há algo mais: a sensação de perda de um parente, ainda que desconhecido. As vítimas são nomes e rostos familiares, daqueles que você bate o olho e pensa que já viu em algum acampamento do movimento juvenil, que já jogaram futebol juntos no clube ou que já se esbarraram em alguma festa ou sinagoga.

Ao ver as fotos e os nomes dos israelenses mortos e sequestrados o meu sentimento de tristeza foi particular. É fácil ser contra a violência em abstrato, mas no mundo real, ver um judeu ser morto de forma violenta foi como ver a morte de alguém da minha própria família. Não é algo que me orgulhe. Tenho plena consciência de que os palestinos vivem um sete de outubro todos os dias, mas é com tal confissão que começo esta autoetnografia de botequim em que descrevo as etapas pelas quais passei para desconstruir minha relação com o sionismo.

Consumo frenético de informação

Passei os últimos anos consumindo de forma incessante o que se produziu sobre o assunto. Canais de Youtube, podcasts, mídia convencional, mídia alternativa, livros, artigos. No primeiro momento, minha obsessão era com o agora. Acompanhei a incursão a Gaza e temia que a coisa tomasse a forma que tomou.

Recebi visita do meu pai naquele fim de semana de outubro de 2023. Lembro de termos (mais) uma discussão infinita sobre o assunto. Ele, na linha do sionismo liberal, entendia aquilo como fruto do fundamentalismo islâmico, do antissemitismo e da barbárie do Hamas. Eu dizia que era preciso voltar no tempo e entender de onde veio o ataque. Argumentei que não se colhe paz plantando a brutalidade típica das Forças de Defesa de Israel (IDF). O tom da conversa escalou até cair, inevitavelmente, no argumento que ouço com frequência e que apela para a culpa judaica: “o que seus avós, sobreviventes do Holocausto, diriam se te vissem defendendo terrorismo e antissemitismo?”. A resposta viria mais tarde ao se revelar a escala do massacre: “acho que ficariam orgulhosos, pois saberiam identificar um genocídio”.

Acompanhei os bombardeios, a guerra de informação e, enfim, a guerra que descambou em genocídio. Vi os vídeos de soldados israelenses fazendo piadas e danças de tiktok com roupas de mulheres palestinas, humilhando idosos e crianças, celebrando a destruição de prédios e de bairros inteiros, executando crianças com tiros na cabeça, sequestrando e torturando médicos e outras tantas barbaridades. Vi os hooligans do Maccabi Tel-Aviv invadirem Amsterdã no contexto de um jogo da Liga Europa, entoarem cânticos de ódio e morte aos árabes e palestinos, assediarem e coagirem moradores locais e, no dia seguinte, sofrerem uma resposta violenta – para, no fim, serem protegidos pela carta coringa do antissemitismo. Vi o plano de limpeza étnica e os projetos para novos assentamentos em Gaza entrarem no debate público em Israel e também a ideia de pagar para que palestinos emigrassem para longe dali, como se fosse algo razoável e benevolente. E soube dos horrores perpetrados no centro de tortura de Sde Teiman, a “Guantánamo” de Israel.

Israelismo

Simultaneamente ao horror das notícias diárias, me vi assistindo a dezenas de documentários e reportagens de antes do sete de outubro como the lab (sobre como o complexo militar-industrial israelense usa do conflito secular como vitrine e dos palestinos como cobaias), Tantura (sobre o massacre perpetrado por forças sionistas contra civis palestinos na guerra de 1948), broken câmeras (que mostra as gravações de um palestino da Cisjordânia sobre o abuso da IDF e a resistência não-violenta dos moradores locais) e tantos outros. Fui me aprofundando, aos poucos, no outro lado da história, assistindo a falas de militantes, refugiados e intelectuais palestinos. Descobri a poesia do professor Refaat Alareer e seu poema se eu devo morrer[1],assisti vídeos de suas aulas, fiquei encantado. Infelizmente, ele foi uma das vítimas do genocídio.

Porém, nenhuma obra me tocou tanto quanto Israelism. O documentário mostra com maestria o processo de fusão entre as identidades dos judeus norte-americanos e Israel, formando gerações de pessoas que apoiam Israel desde a diáspora (com dinheiro, lobby no Congresso ou voto) ou que imigram para a terra prometida para juntar-se à IDF e povoar o país para vencer a batalha demográfica contra os palestinos. Batalha esta cujo teor racista ficou explícito na gravação da conversa vazada entre Ehud Barak e Jeffrey Epstein.

Como mostra o filme (produzido por Simone Zimmerman, judia norte-americana), essa fusão começa na socialização primária da família e segue pela socialização secundária nas escolas judaicas, passa por movimentos juvenis, programas de viagem subsidiados como o Birthright, pelos esportes (no meu caso, indo jogar futebol nos Jogos Macabeus) e é consolidado na vida adulta comunitária seja nas sinagogas, nos clubes sociais ou na simples convivência ensimesmada entre semelhantes, excluindo sutilmente quem é goy[2], com raras exceções.

Mergulhei na história do conflito pelo prisma dos palestinos em textos de Walid Khalid, e da historiografia crítica de Israel que tem Ilan Pappé como expoente. Soube das ações terroristas das milícias judaicas antes de 1948, que não apenas atuavam pela retirada dos ingleses da palestina, mas também pela expulsão da população local de suas terras, fosse pela força ou pelo terror. Descobri que a limpeza étnica precedeu a chamada guerra de independência de Israel de 1948 e foi um plano deliberado de “transferência compulsória” (o Plano D), com instruções claras e registradas para os comandantes militares da Haganá, culminando na Nakba. Esse foi o processo mais difícil: voltar na história e descobrir que havia o outro lado para tudo o que me fora ensinado até então.

“Parece que você perdeu uma perna”, disse minha esposa ao me ver transtornado com o que eu estava descobrindo e, principalmente, ao ver que se desvanecia o resquício de identificação que eu tinha com Israel. “É como se você precisasse reaprender a andar depois de perder uma perna” disse ela. Eu já sabia que Israel era um Estado criminoso, mas que era um dentre tantos. Agora eu via a excepcionalidade, a combinação de crimes que, separados, ocorrem em vários lugares, mas que, casados daquele jeito, dificilmente se encontra paralelo – seja por tempo de duração, intensidade, escala, uso da violência com tecnologia de ponta ou controle material e psicológico das pessoas por meio de leis de segregação.

Para além da violência direta das armas, há a violência estrutural. Uma das cenas que mais me marcou é a de um vídeo em que um chassid (judeu religioso) entra na casa de uma palestina em Jerusalém Oriental. A mulher palestina grita: “Yakub, você está roubando a minha casa” e o homem responde “se eu não fizer isso, alguém o fará. Eu não fiz isso (dando a entender que ele não criou esse sistema de segregação)”. Isso mostra como a lógica da ocupação opera por leis que protegem judeus e criam empecilhos para os palestinos. Retroescavadeiras que demolem casas, poços artesianos e infraestrutura em geral podem ser tão violentas quanto armas de fogo e costumam ser seguidas por barreiras legais que impedem a sua reconstrução porque palestinos carecem de permissões legais de construção em determinadas áreas da Cisjordânia.

Nessa busca por informação descobri o livro “Dispositivo sionista e seus descontentes” da antropóloga Berenice Bento (2025). De pronto, identifiquei-me com os depoimentos dos seis judeus diaspóricos que se tornaram antissionistas e que foram entrevistados por ela. Os dispositivos sociais primários comuns a todos, aqueles aprendidos na infância, são o do medo do antissemitismo e o da narrativa dos judeus como vítimas eternas de perseguições ao longo da história.

Para Bento (2025), essa noção de oprimido e perseguido “impõe a obrigação ética de cada pessoa judia, em todas as partes, se manter conectada visceralmente à defesa do seu povo” e um dos seus efeitos é a “aderência em famílias, escolas e em comunidades a transformar toda pessoa judia como responsável pela sobrevivência de Israel”.

Recordo-me que a disciplina de história judaica do último ano do ensino fundamental da Escola Israelita de Curitiba era focada no Holocausto. Adolescentes de 13 e 14 anos eram submetidos a sessões intensas de textos, vídeos e fotos do horror nazista e lembro de ter pesadelos terríveis me imaginando como prisioneiro nos campos de concentração. Acredito que esses métodos didáticos tenham mudado nos últimos tempos, mas sei que gerações de adolescentes judeus foram formadas com base em uma pedagogia do trauma e do horror que reforçaram esse medo do antissemitismo onipresente e do novo Holocausto como algo que sempre está prestes a acontecer.

Após assistir ao documentário Israelism, uma sensação de que eu havia sido enganado tomou conta de mim. O depoimento desolado de um entrevistado me marcou profundamente, o qual reproduzo abaixo:

Lembro que um dia eu liguei para minha mãe e comecei a chorar com ela no telefone, falando: “Mãe, você mentiu a vida inteira, isso é tudo mentira, é tudo mentira isso que vocês falaram, a escola foi tudo mentira, o movimento juvenil foi tudo mentira. (…). Depois disso veio um pouco da raiva. (Benjamin) Inclusive, [essa verdade] tinha sido imposta para mim sem a minha autorização, ela tinha sido injetada em mim sem a minha autorização, sem nenhum momento eu ter podido dar aquiescência. É quase um sequestro de quem eu sou no mundo, e uma raiva que veio porque junto com isso veio uma raiva gigante entre, primeiro, de mim mesmo, “como eu fui burro de acreditar”, uma coisa assim de uma autocrítica muito dura comigo, “como eu fui burro de acreditar nessas coisas!?”, “como é que eu acreditei nessas mentiras?!” (BENTO, 2025, p. 55).

Essa mistura de sensações de raiva, burrice e vergonha descritas pelo entrevistado por ter acreditado e defendido por tanto tempo uma narrativa tão simplista da história me corrói até hoje. Sinto vergonha de ter levado tanto tempo para ligar os pontos. Quando comecei a trabalhar como professor de Relações Internacionais lá por 2013 e 2014 eu me colocava como judeu crítico de Israel, fazendo o mea culpa sobre os assentamentos, mas me agarrando ao discurso da falsa equivalência dos “extremos dos dois lados que impedem a paz”. Como se não houvesse um sistema de violência estrutural que transforma adolescentes em soldados especializados em atirar, matar, sequestrar e humilhar a população civil palestina. Até mesmo esses jovens soldados são vítimas do sistema: muitos optam pelo suicídio por não suportar os crimes que cometeram e aqueles que rejeitam o serviço militar, os refuseniks, não apenas são presos por alguns meses, como enfrentam barreiras jurídicas e sociais em suas vidas dali em diante.

Do israelismo à Israel real

Essa jornada pessoal de desconstrução começou muito antes do 07/10. Fiz aliá[3] em 2006 e morei apenas seis meses em Israel, a maior parte do tempo em um kibutz perto de Haifa. Eu estava em uma fase de vida em que você ainda não sabe direito o que quer. Meus pais eram curtos de grana e eu não estava satisfeito com a escolha de estudar Direito. Depois de uma experiência quase perfeita de um mês em Israel como turista (quase perfeita porque nosso time de futebol foi eliminado na primeira fase da Macabíadas de 2005), decidi abraçar a imigração. Uma palestra, um papo com representante da Sochnut[4], ajuste da papelada e pronto: lá estava eu, embarcando só com passagem de ida paga por Israel e tendo mais direitos e assistência do governo do que os palestinos que viviam na região há séculos.

Fiz Ulpan e adquiri fluência no hebraico, conheci outros olim chadashim[5] latinos, norte-americanos, europeus e principalmente pessoas do mundo pós-soviético. A batalha demográfica para superar a população árabe era evidente: a maioria dos russos, ucranianos e centro-asiáticos que lá estavam não eram judeus, alguns até usavam crucifixo e outros adereços cristãos. Quando fui a um bar de striptease em Haifa com os amigos do Ulpan, percebi que as mulheres eram em grande maioria eslavas e por minha cabeça de adolescente passava de tudo, menos que eu estava diante de um cenário de tráfico de pessoas, mais especificamente de mulheres apelidadas pejorativamente de Natashas. Ali estava claro que qualquer nacionalidade e religião servia para engrossar a demografia israelense em oposição à palestina, mas isso eu viria a perceber apenas muitos anos depois. Aliás, conheci também muitos americanos e canadenses judeus que imigraram especificamente para servir ao exército de Israel por ideologia – o puro suco de israelismo.

Antes da aliá disseram que se você vai para a faculdade, pode dar um jeitinho de não ir para o exército mesmo estando em idade militar. Chegando lá, descobri que não existe jeitinho para isso. Eu olhava para um lado, para outro, conversava com quem estava no exército, ouvia as histórias das incursões na Cisjordânia, de como os próprios soldados invadiam as casas das pessoas e permaneciam em estado de tensão. Anos depois, um amigo de infância que serviu à IDF contou uma prática comum: conversar com um palestino e fingir ser seu amigo em público para que os vizinhos o vejam como colaborador israelense, deixando-o em maus lençóis. Não havia qualquer razão de segurança para isso, apenas o esporte da humilhação e do constrangimento do “exército mais moral do mundo”.

Ao fim de seis meses vi que aquilo não era para mim. Fiquei com medo de servir no exército? Talvez. Mas acredito que teve mais a ver com enxergar um país e uma perspectiva de vida muito diferentes daquela que haviam me vendido. Voltei ao Brasil, me formei em relações internacionais e fiz carreira como professor da área. Evitei estudar Oriente Médio porque sabia que meu olhar seria enviesado.

Ainda sobre a aliá: não há um único conhecido meu que tenha imigrado por conta de antissemitismo. Todos, sem exceção, o fizeram por oportunidades de trabalho, para fugir da violência urbana no Brasil ou porque já tinham familiares por lá. Reconheço que Israel teve sua função histórica de servir de abrigo às vítimas do antissemitismo europeu, mas o que mais se viu desde então são ondas de imigração por motivos econômicos, como judeus argentinos nos anos 1990 e eslavos em geral após o fim da URSS, ou por ideologia no caso de norte-americanos e ocidentais em geral.

Concluo este primeiro ensaio com o argumento de que a socialização primária e secundária passa necessariamente por linguagem e cognição. Apesar de não ter permanecido em Israel, eu gosto de ouvir música em hebraico e de falar a língua, é um apego afetivo do qual não consigo me desfazer. É um idioma lindo, histórico e primitivo, no bom sentido. As frases são diretas e matemáticas, a raiz da mesma palavra pode ser flexionada para ser substantivo ou verbo, muitas vezes o nome das coisas explica a função delas, é genial! Antes dos jogos da Macabíadas nosso time passou dez dias hospedado e treinando em um kibutz perto de Gaza fundado por brasileiros chamado Bror Chail. Aquela mistura de gente falando hebraico e português, de brasileiros de esquerda que viviam há décadas em Israel me encantou e fez com que no ano seguinte eu quisesse voltar para morar. No Ulpan[6] do kibutz em que fiz aliá aprendi a gostar do hebraico, me conectei com as pessoas, com a terra, com a toponímia. Apenas muito tempo depois fui descobrir que os lugares já tinham nomes em árabe e foram rebatizados para o hebraico. Essa é a tal da violência simbólica, que vai além da direta e da estrutural. E mais do que isso, é uma forma sutil e profunda de não apenas apagar a relação dos palestinos com a terra, mas também de gerar conexão dos judeus diaspóricos com Israel.


[1] Se eu devo morrer
Poema traduzido para o português por Flávio Wolf de Aguiar, publicada no Blog da Boitempo.

Se eu devo morrer,
você deve viver
para contar minha história
para vender minhas coisas
para comprar um pedaço de pano
e alguns fios,
(faça-o branco e longo)
para que uma criança, em algum lugar de Gaza,
enquanto olha o céu nos olhos
esperando o pai que partiu em labaredas —
e não se despede de ninguém,
nem da carne, nem da própria carne —
veja o papaventos, meu papaventos que você fez,
voando lá no alto,
e pense por um momento que há um anjo ali
trazendo o amor de volta.
Se eu devo morrer,
que isso traga esperança,
que seja uma história.

[2] Termo em iídishe para gentio, quem não pertence ao povo judeu.

[3] Processo de imigração para Israel baseado na “lei do retorno”, que significa que todo judeu tem direito a morar no país e a ter direitos plenos de cidadania.

[4] Agência Judaica para Israel.

[5] Novos imigrantes.

[6] Curso de hebraico.

   

Comentários