Retomar Fidel Castro

 


Por CLAUDIO KATZ*
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O legado duradouro de valores que Fidel Castro deixou está à vista, na reação atual do povo cubano diante do assédio imperial. Enquanto Donald Trump proclama sua pretensão de “tomar a ilha, a preparação da resistência na ilha consolida-se: “até à vitória, sempre” e “que ninguém espere a rendição”

Fidel Castro foi a figura política mais importante da América Latina em todo o século XX. Por essa razão, a comemoração do centenário de seu nascimento suscita tantas reflexões e homenagens.

O líder cubano desafiou o imperialismo norte-americano a partir de uma pequena ilha e liderou a primeira revolução socialista vitoriosa do continente. Esse desfecho transformou-o na principal referência das organizações de esquerda e na personalidade mais relevante de toda uma era.

A estreia revolucionária

Por meio de sua própria ação, Fidel Castro sintetizou as tendências da luta anti-imperialista e de um futuro pós-capitalista. Do assalto ao Quartel de Moncada à entrada triunfal em Havana, comandou a batalha vitoriosa contra a ditadura de Batista. Forjou uma força guerrilheira, sintonizando uma modalidade de luta com as tradições de seu país.

Não assumiu de imediato enunciados explicitamente socialistas. Liderou um movimento nacionalista, que misturou as concepções marxistas com o anti-imperialismo radical. Definia-se como leninista e comunista utópico, mas atuou nas organizações do nacionalismo revolucionário inspiradas no legado de José Martí.

Fidel Castro traduziu essa articulação em sua militância no Partido Ortodoxo, na gestação do 26 de julho e na convergência com o Partido Comunista. Com essa prática, corroborou a dinâmica emancipatória na América Latina. Numa região tão condicionada pela dominação estadunidense, confirmou que o desenvolvimento dos processos de libertação passa por uma convergência do anti-imperialismo com o socialismo.

Demonstrou desde o início uma enorme perspicácia, autonomia e inteligência política. Aderiu ao ideário socialista, sem aceitar os mandatos do Kremlin. Percebeu que essa subordinação gerava erros significativos, como a participação do antigo Partido Comunista de seu país em governos antipopulares.

Também não subscreveu os roteiros dogmáticos sobre o sujeito revolucionário, que atribuíam o protagonismo exclusivo da transformação social aos assalariados das aglomerações urbanas. Promoveu uma estratégia combinada de revoltas nas cidades e operações guerrilheiras no campo, prescindindo de qualquer bíblia doutrinária.

Fidel Castro amadureceu sua estratégia em experiências internacionalistas. Inspirou-se no grande levantamento da Colômbia, aprendeu com a adversidade na Guatemala e absorveu o que ocorreu no México. Concebeu a revolução cubana como um episódio da emancipação latino-americana, lendo José Martí e estudando Simón Bolívar. Adaptou essa concepção às diferentes conjunturas que enfrentou em sua vida.

Amadurecimento no poder

No início dos anos 1960, Fidel Castro pôs em prática o processo de radicalização socialista, que tinha concebido anteriormente como resposta às agressões imperiais. Não hesitou em seguir esse rumo, enfrentando pressões de todo o tipo. Exigiam-lhe anistia para os criminosos da ditadura e impôs a justiça; reclamavam-lhe o abandono do programa de transformações sociais e consumou a reforma agrária; chantageavam-no com o fechamento de empresas e ordenou expropriações.

Esse cumprimento de promessas extraordinárias foi possível porque rejeitou a gestão convencional do governo. Conquistou o poder efetivo do Estado e, a partir desse controle, determinou o ritmo das mudanças. Demonstrou na prática como se leva a cabo uma transformação revolucionária.

Fidel Castro interpretou o que aconteceu em Cuba como o início de uma onda regional e assumiu grande parte do comando dessa maré. Não só colocou todos os recursos materiais e humanos de seu país a serviço da revolução continental, como atuou como orientador e conselheiro da esquerda. Introduziu uma cultura de debates, sugestões e propostas, muito diferente do tradicional verticalismo que regia o movimento comunista internacional. Procurou a unidade e tentou superar o sectarismo, impulsionando políticas contrárias à conciliação com a burguesia.

Promoveu com grande audácia a ação guerrilheira, mas registrou as desvantagens desse método. Defendeu a conveniência dessa modalidade e observou na vitória dos sandinistas a confirmação dessa vantagem. Mas se mostrou cauteloso quanto à aplicação indiscriminada desse método.

Considerou Che Guevara como a maior figura da América Latina, mas desaconselhou o momento e o local de sua ação. Emitiu a mesma advertência em outros casos, mas sem se intrometer nas decisões de cada corrente da esquerda. Fidel Castro pregava com o exemplo da solidariedade, sem agir como profeta. Nunca viu em si mesmo um guia infalível de outras forças políticas.

Uma prova de sua colaboração revolucionária desinteressada foi a participação militar cubana nas guerras de Angola e Moçambique e nos confrontos no Congo e na Namíbia. Foram intervenções decisivas para derrotar o apartheid sul-africano, que ilustraram seu enorme compromisso com o internacionalismo.

Fidel Castro concebia a ação revolucionária a partir de um bloco geopolítico e mundial progressista. Compreendeu a necessidade de participar no chamado bloco socialista, não apenas para resistir à investida do gigante norte-americano contra uma pequena ilha do Caribe. Entendeu que essa dimensão era indispensável para reforçar a manutenção do apoio econômico e militar de um projeto internacional transformador.

Sabia que a cúpula da URSS era hostil à ação revolucionária e, por isso, enfrentou tantos desentendimentos com o Kremlin desde a crise dos mísseis. Agiu sempre com realismo, para forjar compromissos de luta contra o inimigo principal. Procurou, dessa forma, preparar o caminho para as vitórias do socialismo.

Os novos desafios

A implosão da URSS alterou sua visão e suas prioridades. Teve que lidar com a dura provação do “período especial” e deu exemplo de respostas a um cenário de catástrofe. Demonstrou a relevância do heroísmo para enfrentar essa adversidade.

Quando a conjuntura de total isolamento cubano ficou para trás, Fidel recuperou a centralidade no novo cenário do ciclo progressista. No calor das rebeliões e dos novos governos, Havana transformou-se num centro de conferências da esquerda latino-americana, com o Comandante debatendo cursos de radicalização muito diferentes da etapa anterior.

Nesses anos, ele indicou que a revolução não estava na ordem do dia, mas tendia a ressurgir. Atribuiu essa recorrência à opressão, à espoliação e aos cataclismos gerados pelo capitalismo dependente. Situou o epicentro de qualquer mudança significativa nos levantamentos populares e ponderou sobre as revoltas que derrubaram vários governos neoliberais.

Também destacou a centralidade dos novos sujeitos sociais, como o movimento indígena. Fez isso com sua habitual cautela e sem generalizar a centralidade desse setor. Manteve o mesmo cuidado que demonstrava anteriormente ao referir-se ao proletariado industrial.

Seguindo seu costume, traduziu imediatamente suas opiniões em iniciativas políticas e estabeleceu uma relação estreita com Lula, Nestor Kirchner, Evo Morales e Hugo Chávez. Recriou o mesmo estilo de diálogo pessoal e direto que mantivera anteriormente com Salvador Allende. Usou sua influência para contrapor a pressão exercida pelos social-democratas empenhados em incentivar a continuidade do neoliberalismo.

Sua pregação influenciou a derrota da ALCA e alimentou as iniciativas que culminaram nas Conferências contra a dívida externa e no surgimento da ALBA. Fidel Castro sustentou a construção do bloco latino-americano, que posteriormente ficou sujeito a inúmeras oscilações.

Nesse período, o internacionalismo dos médicos cubanos ganhou mais significação do que a ação militar solidária. Transformou, além disso, a batalha das ideias num pilar da disputa contra a direita. Aprofundou também suas críticas ao capitalismo e destacou o caráter intrinsecamente destrutivo desse sistema. Reformulou inclusive sua visão do socialismo, com sugestões mais abertas sobre o perfil futuro de uma sociedade igualitária.

As conversas que manteve com Hugo Chávez sintetizaram essa maturidade, pois Fidel Castro encontrou no líder venezuelano seu melhor discípulo. Atuou como um grande conselheiro da experiência bolivariana e sugeriu a seu par caribenho que não se sacrificasse diante do golpe de 2002. Incentivou-o a apostar numa liderança que emergiu com uma rapidez inusitada. Em sua frutífera troca, os dois líderes alcançaram uma sintonia total. Hugo Chávez amadureceu como socialista revolucionário formado no meio militar, compartilhando a estratégia castrista de radicalizar os processos de mudança.

Essa convergência foi objetivamente reforçada pela pressão brutal que os dois países sofreram por parte do imperialismo norte-americano. A CIA orquestrou em Cuba e na Venezuela os mesmos atentados, provocações e conspirações. O atual chefe dessas operações, Marco Rubio, é um afilhado direto da máfia de Miami. É a partir dali que se alimenta a campanha de mentiras, que há décadas a imprensa imperialista propaga.

Os fantoches da intervenção militar estadunidense autodenominam-se democratas e os defensores da soberania nacional carregam o rótulo de ditaduras. Contra esse mundo ao revés, a voz de Hugo Chávez ecoou com a mesma força que a de seu mestre.

Compromisso renovado

O legado duradouro de valores que Fidel Castro deixou está à vista, na reação atual do povo cubano diante do assédio imperial. Enquanto Donald Trump proclama sua pretensão de “tomar a ilha, para fazer com ela o que quiser”, a preparação da resistência na ilha consolida-se dia após dia. Os dois lemas das marchas multitudinárias falam por si mesmos: “até à vitória, sempre” e “que ninguém espere a rendição”.

Donald Trump está empenhado em provocações de grande magnitude. Sua frota cerca a ilha e tenta desembarcar alguns mercenários, que já foram abatidos. O anúncio de Silvio Rodríguez de que pegará em armas para defender seu país reaviva a tradição heroica que Fidel Castro forjou. A batalha atual é tão dura como nos anos do Comandante.

A máfia anticubana incentiva, a partir da Flórida, o descontentamento interno, enquanto o Pentágono intensifica uma escalada inédita de agressões. Em 60 anos de bloqueio, nunca se atreveram a impor o atual cerco ao abastecimento de petróleo. Com essa asfixia energética, pretendem forçar uma crise humanitária semelhante à sofrida pelo Haiti. Procuram generalizar o apagão, a paralisação dos hospitais, o colapso do abastecimento de água e a falta de alimentos.

Mas a mesma dignidade que iluminou Fidel Castro volta a emergir. O governo raciona o combustível para garantir serviços e atividades essenciais e procura alternativas nos parques solares, enquanto busca garantir o fornecimento de petróleo por parte dos países que estão rompendo o bloqueio.

Navios da Rússia, Turquia e China chegam à ilha, enquanto o Comboio “Nuestra América” desembarca com ajuda humanitária. Dois navios com mantimentos já chegaram do México para demonstrar que “Cuba não está sozinha”. Muitos líderes de partidos e organizações sociais viajam para a ilha, para expressar pessoalmente seu compromisso com esse apelo. Os ensinamentos de Fidel Castro recuperam a atualidade.

Um legado perdurável

Fidel Castro autodefinia-se como um comunista utópico e promovia especialmente as cooperativas no plano econômico. Incentivou esse modelo no setor agrícola, ao lado da estatização de outras atividades. Juntamente com Che, mostrou-se muito hostil a qualquer introdução do mercado. Rejeitava o modelo de autogestão da Iugoslávia e apoiou a invasão russa da Tchecoslováquia, porque via com apreensão as posturas pró-mercado dessa experiência. Mas, ao mesmo tempo, opôs-se veementemente às estatizações compulsivas realizadas na URSS durante a coletivização forçada.

Na prática, evitou a aplicação da Nova Política Econômica, proposta por Vladímir Lênin para combinar o mercado com a planificação. Sua aposta era outra. Esperava inserir a economia cubana num bloco socialista mundial em expansão, com a especialização dessa participação em atividades altamente qualificadas.

Esse projeto foi muito visível não só na medicina, mas também em outros domínios que envolviam um grande investimento em educação. Fidel Castro evitou inclusive o giro para o mercado após o colapso da URSS, pois identificava esse rumo com a corrupção e a desigualdade. Por isso, centrou a resistência do “período especial” na vontade, na convicção e na solidariedade.

Como chefe de Estado, apoiou as lojas especiais que vendiam em moeda estrangeira, as empresas mistas e o desenvolvimento do turismo, apenas como uma medida defensiva. Em todos os momentos, observou com aversão o rumo seguido pela China. Manteve essas reservas durante o período de grande oxigenação trazido pelo ciclo progressista latino-americano. Mas, ao mesmo tempo, aconselhou cautela quanto a uma eventual repetição, por parte da Venezuela, do rumo econômico seguido por Cuba.

Fidel Castro estudava Lênin como sua referência para as grandes decisões, mas são incontáveis os paralelos entre sua própria figura e o líder bolchevique. Ambos foram estrategistas da revolução socialista, com grande capacidade para adaptar esse projeto às mudanças das circunstâncias. Na batalha por esse objetivo, Fidel Castro gerou contribuições muito frutíferas para o pensamento de esquerda.

Promoveu, acima de tudo, a autocontenção na gestão do poder. Exerceu uma liderança insubstituível durante décadas, mas considerou os perigos dessa prolongada liderança. Atribuiu grande parte do infortúnio sofrido pela União Soviética à gestão autoritária do Estado, com o consequente afastamento da maior parte da população.

Interpretou o desastre do Camboja como resultado da gestão delirante de Pol Pot e foi especialmente crítico em relação ao despotismo de Stalin. Destacou a impossibilidade de construir uma democracia efetiva com líderes deslumbrados com a idolatria e o exercício da supremacia sobre os demais. Com essa perspectiva, lançou mensagens de advertência oportunas às lideranças do caudilhismo latino-americano.

Para enfatizar sua oposição ao culto da personalidade, Fidel Castro rejeitou a construção de estátuas ou a atribuição de seu nome a ruas, aeroportos e instituições. Não foi um ato de humildade, mas uma mensagem de conduta a ser seguida por toda a esquerda.

Também realçou, repetidamente, a centralidade da ética revolucionária. Inspirou-se em José Martí, reivindicou Mella e exaltou a estatura moral de Che Guevara. Adaptou esses princípios à ação guerrilheira, impondo comportamentos exemplares às suas tropas, para garantir a proteção dos civis, impedir as torturas e punir o terror. Estendeu essa atitude à gestão política, com tolerância zero para com a corrupção e severas penalidades ao enriquecimento individual.

Esse legado foi conceitualmente acolhido pela vertente humanista do marxismo latino-americano, que hierarquiza a incidência do sujeito face ao condicionamento das estruturas. Fidel Castro situou-se claramente nas vertentes historicistas do marxismo, que nunca aceitaram o fatalismo das forças produtivas como guia de reflexão.

Por essa razão, atribuía tanta importância à educação e à difusão da cultura. Concebeu a formação do “homem novo” como uma síntese de compromisso, militância, entrega revolucionária e elevação do horizonte cultural. Com esse alicerce, enfrentou a batalha das ideias em diferentes campos. Apostou no ingrediente moderno da racionalidade, como pilar de um mundo emancipado da exploração capitalista.

Fidel Castro autodefinia-se como um indivíduo otimista, em natural congruência com sua liderança revolucionária. Nunca poderia ter comandado tantos feitos sem grandes expectativas na vitória dos oprimidos. Colocou-se sempre nos antípodas da amargura, do cinismo e da descrença.

Inspirador de toda uma geração, nunca aceitaria uma avaliação nostálgica de sua obra. Exigiria que fosse lembrado com os olhos postos no futuro da sociedade igualitária, que ele imaginou e que nós devemos construir. Retomar Fidel Castro é o desafio de nossa época.

*Claudio Katz é professor de economia na Universidad Buenos Aires. Autor, entre outros livros, de Neoliberalismo, neodesenvolvimentismo, socialismo (Expressão Poplar) [https://amzn.to/3E1QoOD].

Tradução: Fernando Lima das Neves.


"A leitura ilumina o espírito".

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