Trump entre Cuba e Taiwan

Fontes: Página/12 - Imagem: Embaixada dos EUA em Cuba.


Trump e sua equipe medíocre de assessores nunca aprendem. Os Estados Unidos se atolaram na Guerra do Vietnã e sofreram uma derrota humilhante. Depois, fizeram o mesmo no Iraque e no Afeganistão, com resultados idênticos. A retirada caótica das forças americanas de Cabul é um dos capítulos mais vergonhosos da história militar dos EUA. Agora, o país ataca o Irã, bombardeando indiscriminadamente alvos militares e civis, ameaçando levá-lo de volta à Idade da Pedra. Mas a resposta de Teerã foi devastadora: destruiu quase todas as instalações militares iranianas nas petro-monarquias do Golfo e fechou o Estreito de Ormuz, causando um aumento massivo nos preços do petróleo e colocando em risco a economia global.

Segundo informações vazadas do Comando Central dos EUA (CENTCOM), havia entre 40.000 e 50.000 soldados nessas bases. Mas o Oriente Médio, que, como a Bíblia descreve, é uma terra de milagres, levou a Casa Branca a reconhecer apenas quatorze mortes — um milagre bíblico, sem dúvida! — e cerca de quatrocentos soldados feridos, números totalmente inventados e que precisarão ser corrigidos o quanto antes. A menos que, ao primeiro tiro disparado, esse grande contingente militar tenha fugido às pressas, buscando refúgio em algum país amigo da região, ou retornado aos Estados Unidos em desgraça. Lembremo-nos de que a primeira vítima da guerra é a verdade, e o império não pode ser acreditado "nem um pouco", como Che Guevara sabiamente alertou.

A destruição do sistema de radar instalado por sucessivas administrações americanas nessas bases coincidiu com uma mudança climática repentina e radical ocorrida desde o final de abril, quando a seca interminável e extrema que assolava o Irã há vários anos deu lugar a chuvas torrenciais em grande parte do seu território. Essa rápida transformação parece confirmar as suspeitas das autoridades iranianas de que radares americanos e israelenses estariam direcionando os movimentos de aeronaves que lançavam substâncias capazes de afetar a formação de nuvens e reduzir a precipitação. A técnica de "semeadura de nuvens", utilizada para induzir chuva, é bem conhecida. Mas pouco ou nada se sabia sobre a eficácia de certas substâncias na prevenção da chuva. Agora sabemos algo mais: uma seca pode ser induzida e prolongada. A guerra climática entrou em cena.

Retomando nossa linha de raciocínio, Vietnã, Iraque, Afeganistão e agora Irã são todos marcos de derrotas previsíveis, o que nos leva a perguntar por que esse “erro” persiste. A resposta: porque não se trata de um “erro”, mas sim da execução implacável do plano de negócios do gigantesco “complexo militar-industrial”, cuja lucratividade é alimentada pelas guerras intermináveis ​​que o império provoca e trava.

Não nos esqueçamos que esses lucros derivam, em parte, do financiamento das carreiras políticas de legisladores nacionais e estaduais, governadores e, claro, daqueles que aspiram a ocupar a Casa Branca. É evidente que esses políticos, com pouquíssimas exceções, uma vez no poder, sabem exatamente o que devem fazer: fomentar guerras em todos os cantos do planeta e manter esse tipo perverso de keynesianismo baseado em gastos militares exorbitantes. Sem os superlucros desse sistema fatídico, o financiamento privado da atividade política cessaria, e ninguém na classe política quer que isso aconteça.

Trump reiterou que, assim que a vitória dos EUA no Irã estiver garantida, ele "assumirá o controle de Cuba quase imediatamente". Se o fizer, estará caminhando para outro desastre, como o que Washington sofreu na Baía dos Porcos, em abril de 1961. Os covardes americanos podem bombardear a ilha e causar extensos danos materiais a edifícios e infraestrutura, mas para "assumir o controle" daquele país, especialistas militares estimam que uma força de cerca de 220.000 soldados seria necessária para manter o controle e a ordem após a invasão, que desencadearia uma luta feroz com as Forças Armadas Revolucionárias Cubanas (FAR) e as milícias populares ainda ativas nas cidades menores da ilha. Essa iniciativa de Trump também representaria o golpe final nos frágeis alicerces da ordem mundial moribunda e estabeleceria uma espécie de lei da selva, onde, seguindo a doutrina Trump, qualquer país poderia invadir e tomar o território de outro.

Pequim e Moscou já alertaram sobre esse perigo e expressaram suas críticas às ambições de Trump. Mas alguém também deveria dizer ao falastrão nova-iorquino que, se ele avançar militarmente sobre Cuba, estará entregando de bandeja a legitimidade de uma operação semelhante que a República Popular da China poderia realizar para reintegrar à força a província rebelde e estratégica de Taiwan.

Se algo assim acontecesse, como poderia Washington condenar Pequim por retomar à força uma de suas próprias províncias quando tentou fazer o mesmo com um país independente como Cuba?

Publicado em Página/12


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