ULTRADIREITA É UMA AMEAÇA PARA O BRASIL - O que Lula pode aprender com Portugal para vencer a ultradireita em 2026

Crédito: Ricardo Stuckert

O que o presidente brasileiro pode, de fato, aprender com essa experiência para evitar que o mesmo fenômeno avance no Brasil em 2026?

Camila Miranda Evangelista

A visita de Lula à Lisboa em abril ocorre em um momento simbólico importante: Portugal acaba de dar um exemplo concreto de como derrotar a ultradireita nas urnas, com a vitória de António José Seguro (PS) sobre André Ventura (Chega). Mas o que o presidente brasileiro pode, de fato, aprender com essa experiência para evitar que o mesmo fenômeno avance no Brasil em 2026?

Lula já demonstrou ter absorvido a primeira lição. Imediatamente após o resultado do segundo turno em Portugal, ele parabenizou publicamente Seguro e afirmou que a derrota da ultradireita representa a “vitória da democracia num momento tão importante para a Europa e o mundo”. Essa fala não é protocolar. Ela estabelece um enquadramento político fundamental: a disputa não é entre esquerda e direita, mas entre democracia e autoritarismo. Foi exatamente esse discurso que permitiu a formação da frente ampla em Portugal, e foi o mesmo que funcionou no Brasil em 2022. Para 2026, o aprendizado é claro: Lula precisa reforçar continuamente a narrativa de que a eleição será um plebiscito entre democracia e radicalismo, e não uma disputa ideológica convencional.

O caso português mostrou que a derrota da ultradireita exigiu um movimento incomum: a esquerda e setores da centro-direita uniram-se em torno de um mesmo candidato, deixando de lado diferenças programáticas significativas para impedir a vitória de Ventura. Seguro venceu porque se apresentou como uma figura institucional e tranquila. Para o Brasil, a lição é dupla.

Primeiro, a frente ampla é possível, mas exige moderação retórica. Lula, em 2026, tem se movido para a esquerda em diversos temas, o que pode dificultar a atração do eleitorado de centro. Lula já sabe, mas não custa reforçar: falar apenas com a própria base não é suficiente, é preciso construir pontes com quem não vota no PT. Em segundo lugar, o adversário deve ser tratado como ameaça democrática, não como oponente comum. A estratégia portuguesa funcionou porque Ventura foi apresentado como uma ruptura perigosa com a democracia. No Brasil, Flávio Bolsonaro (PL) tem se esforçado para construir uma imagem de moderação, e a mídia tradicional tem colaborado com essa operação. Lula precisará desconstruir essa imagem, mostrando a continuidade do projeto bolsonarista.

Um episódio que ocorre exatamente durante a visita de Lula a Lisboa ilustra o que está em jogo. André Ventura convocou um protesto em frente ao Palácio de Belém, durante o encontro de Lula com o presidente português. A maioria dos manifestantes foi composta por brasileiros residentes em Portugal. Ventura já havia apoiado Jair Bolsonaro em 2022 e recebeu apoio de Eduardo Bolsonaro durante a campanha portuguesa. Em 2024, o líder do Chega disse que, se fosse primeiro-ministro, proibiria a entrada de Lula em Portugal. Essa coordenação internacional significa que Lula não enfrentará apenas um adversário doméstico, mas uma rede global, e precisará de alianças também internacionais para contrapor.

O paradoxo final é que Lula visitou Lisboa como exemplo de quem já derrotou a ultradireita no Brasil, em 2022, mas precisa aprender com Portugal como fazer isso de novo em um cenário ainda mais difícil. A vitória de Seguro sobre Ventura mostrou que a união de esquerda e centro-direita em torno de um candidato moderado e institucional é capaz de derrotar o radicalismo. Contudo, o Brasil apresenta desafios adicionais: uma polarização mais consolidada, margens de vitória muito menores e um adversário que aprendeu a modular o discurso para soar menos extremo.

Lula tem três tarefas concretas pela frente. A primeira é manter a narrativa democrática como eixo central da campanha, transformando a eleição em um plebiscito entre democracia e autoritarismo. A segunda é calibrar o tom do discurso para não afastar o centro, que será decisivo em uma disputa apertada. A terceira é enfrentar a rede transnacional da ultradireita com alianças internacionais e combate sistemático à desinformação.


Camila Miranda Evangelista é jornalista. Doutoranda em Ciências Sociais pela PUC-Rio, em estágio doutoral no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES-UC).

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