Por que a direita vem vencendo e qual a responsabilidade da esquerda nesse sentido?

O presidente argentino Javier Milei e o candidato presidencial brasileiro de direita Flávio Bolsonaro se cumprimentam durante o lançamento da campanha deste último na convenção do Partido Liberal em São Paulo, Brasil, em 25 de julho de 2026. Foto: AFP

Gabriel Vargas Lozano
jornada.com.mx/

Uma das questões mais prementes da atualidade é por que a direita vem ganhando terreno em diversos países ao redor do mundo, especialmente na América Latina. A resposta é multifacetada e complexa. Uma das causas principais é o fato de o grupo oligárquico de extrema-direita que chegou ao poder com Donald Trump ter implementado uma política agressiva contra seus próprios cidadãos e contra os de várias partes do mundo. 

Não é novidade que os Estados Unidos tenham desenvolvido essa estratégia para manter e ampliar sua hegemonia global, com o objetivo de se apropriar dos recursos naturais de outros países, aumentar seu poderio militar e derrotar ideologicamente seus oponentes. Seu alvo agora são as ideologias de esquerda. Os pretextos foram muitos: antes era a democracia, e hoje é a luta contra as drogas. Mas a diferença é que agora age com total desrespeito ao direito internacional. 

Por exemplo, Trump ordenou o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa na Venezuela para levá-lo a uma prisão nos EUA, matando seus guardas e violando a soberania do país, com o objetivo de se apoderar de seus vastos recursos petrolíferos; assassinou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, com o propósito de provocar uma revolta naquele país e tomar essa posição estratégica, o que não aconteceu; impôs tarifas a torto e a direito para proteger seus interesses, e assim por diante. 

Mas ele, juntamente com seu Secretário de Estado, Marco Rubio, também convocou todos os seus aliados para organizar a luta contra o que chamam de “terrorismo político”, que envolve orquestrar ataques por todos os meios (políticos, econômicos e midiáticos) para combater a esquerda. Não se trata de combater terroristas de verdade, mas sim aqueles que se opõem aos seus interesses. Felizmente, nosso governo se recusou a ser cúmplice dessas reuniões. Nesse sentido, em vez de invadir países latino-americanos, Trump optou, em primeira instância, por apoiar todos os candidatos de direita. 

Essa é a lógica do poder. No entanto, a questão é: o que aconteceu com a esquerda? Vamos responder brevemente, reconhecendo que se tratam de processos complexos. Comecemos pelo que aconteceu no Chile, um país onde um movimento de esquerda ganhou apoio maciço e levou Gabriel Boric à presidência. Contudo, sua proposta de nova Constituição foi derrotada pelo Pinochetismo; ele não conseguiu conter a insegurança causada pelo crime organizado, nem tirar o país da crise econômica. Consequentemente, o candidato de direita José Antonio Kast venceu. 

Na Bolívia, o Movimento para o Socialismo (MAS) conseguiu se manter no poder por 20 anos, mas enfrentou eleições divididas entre Evo Morales (que buscava um quarto mandato) e Luis Arce, o presidente cessante que não conseguiu conter a crise econômica. O candidato de direita Rodrigo Paz venceu a disputa contra outro candidato de direita, Jorge Tuto Quiroga. 

Na Colômbia, após um governo de esquerda (pela primeira vez) liderado por Gustavo Petro, cujo candidato, Iván Cepeda (48,7% dos votos), perdeu, embora por uma margem estreita, para o candidato de extrema-direita Abelardo de la Espriella (49,7%), devido à crise econômica, escândalos de corrupção e à incapacidade de conter a violência em certas áreas do país, além de contradições internas na campanha de Cepeda.

E depois há o Peru, onde ninguém menos que a filha do ditador Alberto Fujimori venceu, que, apesar da condenação que o levou à prisão, mantém a mesma linha política do pai. Keiko Fujimori ganhou com 9.223.396 votos contra o candidato de esquerda, Roberto Sánchez, que perdeu com 9.173.755 votos. 

Um exemplo paradigmático foi a eleição de Javier Milei na Argentina em 2023. Um personagem grotesco, de extrema-direita e anarcocapitalista, que prometeu e cumpriu sua promessa de cortar gastos estatais destinados a cobrir benefícios para trabalhadores, camponeses e a população em geral, e ainda assim obteve 14,5 milhões de votos no segundo turno, contra o peronista Sergio Massa. 

O que surpreende nestas e noutras eleições é que um grande número de votos para a direita não provém apenas dos seus próprios apoiantes, mas também de um grupo de pessoas que votam inconscientemente contra os seus próprios interesses e devido à aparente incerteza quanto ao futuro, face a um passado de corrupção e incapacidade de governar. 

As eleições foram vencidas pela direita graças ao apoio de Trump, às campanhas midiáticas repletas de bots, ao apoio econômico e político das oligarquias, ao sentimento de alienação e à falta de consciência política já existentes, mas também devido aos erros e contradições da esquerda. 

No entanto, como diz o ditado, "se vires a barba do teu vizinho a ser feita, faz-te também". Não estamos imunes às inúmeras táticas dissimuladas da direita, apoiada pelo nosso vizinho do norte, mas tanto o Morena como o governo devem examinar cuidadosamente as causas do declínio da esquerda nos países mencionados e agir em conformidade, porque, caso contrário, algo que não queremos que aconteça ao nosso país poderá ocorrer. 

* Professor e pesquisador de filosofia na UAM-I 


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