Érico Veríssimo deve ser muito
lembrado num momento como esse, em que os princípios volúveis tomam conta e a
coerência se torna mais rara do que já foi.
Tarso Genro - http://cartamaior.com.br/
Quando o dia “D” chegou eu estava
bastante tenso. Levava — juntamente com o Laci — um pequeno volume de poesias
“sociais” de minha autoria, de valor duvidoso, para presentear ao nosso
anfitrião. Érico sempre recebia visitas no fim da tarde. Conversava
descontraído, valorizando o interlocutor e semeava, com a sua voz pausada de
contador de estórias, a grandeza intelectual e moral com que levava a sua vida
de escritor e cidadão.
Repeti a visita algumas vezes e
ainda cumpri uma tarefa que a minha mãe, Elly, que me despertou o gosto pela
leitura, me havia comissionado: “quero conhecer o Érico!”, ela mandou. Quando
lhe contei das minhas já duas visitas na Felipe de Oliveira, certamente ela pensou
que isso seria fácil. E foi. Falei com a Mafalda e ela, no ato, marcou a hora
para o nosso novo encontro.
Lá fui com a minha mãe, numa bela
tarde de 74, visitar Érico Veríssimo. Foi um episódio emocionante e Mafalda,
quando abriu a porta para nos receber, disse uma frase que aumentou meu
prestígio intelectual na família: “Tarso, o Ërico já estava sentido falta da
tua visita.”
Evidentemente que a sensibilidade
humana da Mafalda inventou o “sentir falta”, para prestigiar um jovem projeto
de escritor, recentemente vindo de Santa Maria, que trazia a mãe para conhecer
o seu marido e brilhante escritor. A grandeza humana de Mafalda não ficava um
milímetro abaixo do Érico.
Lembrei-me de Érico, neste
momento, a propósito de uma magnífica entrevista concedida por ele em 1967, a
Adolfo Braga. Nela, discorria sobre seu último livro então lançado, “O
Prisioneiro”, e justificava o tema escolhido (guerra do Vietnã), fazendo
referência a um dos personagens do romance, o Tenente negro, torturador do
vietcong aprisionado e sob inquisição: "ao escolher para o papel de
inquisidor um tenente negro, eu também pude incluir na minha história o
problema do homem de cor norte-americano. Existem 30% de soldados negros
lutando no Vietnã. Eles defendem uma civilização que os repudia e esse é um dos
absurdos de toda essa situação. Estamos em tempo de guerra, injustiças,
absurdos, equívocos, mortes e destruição. É natural que tudo isso sensibilize
um escritor que não vive numa torre de marfim".
Érico caracterizava a agressão
norte-americana ao Vietnam, na mesma entrevista, como "uma guerra
ideológica, mas é sobretudo uma guerra de disputa econômica, de trustes e
cartéis". Hoje os “trustes” e "cartéis" estão um pouco
invisíveis, pois quem fala diretamente são as agências de risco e suas
estruturas privadas de caráter especulativo, comandando diretamente as ações
dos Governos. Mas as mortes, o absurdo e a destruição, permanecem iguais ou
piores.
Na mesma entrevista, questionado
sobre a situação de ser um escritor “alienado”, o autor do “O Tempo e o Vento”,
“Senhor Embaixador”, “O Prisioneiro”, “Caminhos Cruzados” diz, não sem alguma
ironia benigna: “Veja você: Engels, que não foi propriamente do PSD, disse que
Balzac, com seus romances, prestou mais serviços a causa do socialismo, mesmo
sendo um conservador, do que se escrevesse panfletos políticos.”
Para quem não lembra, o grande
crítico do modo de vida burguês e da superficialidade que caracterizava a vida
burguesa do Século 19, Honoré de Balzac, era ideologicamente um reacionário e
politicamente um legitimista antirrepublicano.
Luis Fernando Veríssimo abre o
livro de entrevistas em que me apoio (“A liberdade de escrever”, Edipucrs e Ed.
da Ufrgs) com uma precisa e sintética apresentação, como é do seu feitio,
dizendo que o personagem principal das entrevistas, além de dar um testemunho
sobre o seu tempo “manteve uma coerência também rara numa época de princípios
volúveis”. Érico Verissimo deve ser muito lembrado num momento como esse, em
que os princípios volúveis tomam conta e a coerência se torna mais rara do que
já foi.
Coerência rara em época de
princípios volúveis! Frases como esta, com a capacidade de sintetizar
exigências mínimas para todo um período de lutas, recuos, dificuldades, com
matizes e relações dissolvidas pela descartabilidade, crescente indiferença
pela a morte, a dor, a tortura — na “sociedade líquida” como diz Zygmunt Bauman
— frases como essa, poderiam ser tuitadas nas redes todos os dias. Elas
ajudariam as pessoas a refletirem, a não se ofenderem, a não trocarem o
argumento pelo ódio e o ataque político pela difamação.
O tipo de crise que atravessa o
capitalismo, com a substituição dos valores do trabalho pela possibilidade do
enriquecimento sem trabalho, a substituição de uma sociedade produtora de bens
necessários para a reprodução de uma vida digna por uma sociedade de consumo
irracional e predatória, só pode ser resolvida com a formação de uma
consciência majoritária na sociedade. É a consciência do abismo. De um abismo
para todos, de todas as classes, de todos os ritos religiosos, de todos os
territórios. A consciência de que tudo poderá terminar para os nossos filhos e
netos, como disse T.S. Eliot, não "com um estrondo, mas com um
gemido". Dezenas de Éricos fariam um bem enorme ao nosso Brasil.
_________________
Tarso Genro foi governador do
Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça,
Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.
Créditos da foto: Sul21
Nenhum comentário:
Postar um comentário
12