sexta-feira, 2 de junho de 2017

Igrejas têm mais sucesso que partidos nas periferias, avalia Aldo Fornazieri


Cientista político ajuda a entender a crise dos movimentos tradicionais de esquerda e defende nova pedagogia


Jornal GGN - A desestabilização político-social enfrentada hoje no país não é resultado de uma única crise, mas sim de múltiplos conflitos estruturais que desembocaram na atual crise, a avaliação é do professor Aldo Fornazieri, Diretor Acadêmico da Fundação Escola de Sociologia e Política desde 2006, e organizador, ao lado do professor Carlos Muanis, do livro 'A crise das esquerdas' que reúne textos e entrevistas de professores e ativistas. 

Em entrevista para o jornalista Luis Nassif ele pontua que a crise dos movimentos e partidos de esquerda, por exemplo, tem como fundamento a crise dos próprios alicerces que fundamentaram suas ideologias.

"Com exceção de alguns líderes históricos do marxismo, o movimento marxista se instituiu como um movimento anti-político, que desprezava a política subordinando, fundamentalmente, a política à economia, a partir de uma tese clássica do Marx, quando ele dizia que a superestrutura política-ideológica era uma espécie de um reflexo da estrutura econômica e material". Por esse motivo, boa parte dos movimentos sociais da esquerda perderam a perspectiva da alcançarem a autonomia a partir da perspectiva político-econômica e os erros do PT, enquanto governo, se devem parcialmente a esse olhar. 

"Um exemplo disso é que três dias antes do impeachment, em 17 de abril de 2016, tanto o Lula quanto a Dilma e o PT avaliaram que eles tinham voto suficiente para barrar o impeachment. Ao não conhecer como se dá o jogo política dos palácios, e como tem que lidar com a relação de amigo e inimigo, eles se deixaram derrotar completamente", avança o cientista reforçando que a lógica política é a lógica do poder. 

A corrupção também é apontada por Fornazieri como outro elemento decisivo na queda do PT, não só no sentido do dinheiro, mas também dos princípios quando alcançou o poder no que o cientista chamou de "ideologia do novo-rico", quando o partido, ao chegar no "outro lado", atuando diretamente juto aos inimigos, passou a não saber diferenciar a semelhança entre esses e seus aliados.

"Se você não tem em mente essa dinâmica - amigo e inimigo - você não tem estratégia, porque não tem inimigo. Em política, vários clássicos sempre enfatizaram isso, desde Maquiavel até Carl Schmitt".

O professor pontua que não existe uma estratégia pré-definida para todo o jogo político. Cada conjuntura exige uma saída, porém, embebido no poder, o PT teria perdido a condição de estrategista. E isso já era visível em Junho de 2013, aliás as condições políticas que culminaram com a retirada do partido do poder guarda as bases naquela conjuntura.

"Num determinado momento você pode fazer alianças, mas sem perder de vista os objetivos finais estratégicos que você procura com essas alianças, e sem perder de vista que muitas vezes o seu aliado vai ser o seu inimigo amanhã", destacou Fornazieri, completando que um partido que se constitui no poder deve ter sempre em mente a manutenção da autonomia, caso contrário a tendência será perder a capacidade de decidir, como ocorreu com o Partido dos Trabalhadores.

Mas chegar ao poder e se manter nele não é tarefa fácil no Brasil. O cientista político destacou que, como o principal problema do país é a profunda desigualdade social, a ação política deve manter estratégias em várias frentes: no desenvolvimento, na inclusão e na economia, ou seja, nos principais causadores das desigualdades.

"O PT atacou esses problemas superficialmente, porque ele não fez reformas estruturais que implicassem na remoção dessa desigualdade", por isso o saldo do PT, na saída do governo, é pequeno e isso é medido, segundo Fornazieri, pelo tempo em que a próxima gestão consegue desmontar as políticas firmadas no governo anterior o que, como temos visto, tem ocorrido rapidamente: praticamente todas as políticas sociais promovidas pelos petistas já estão em vias de serem exterminadas. 

Consenso entre as esquerdas é possível?

Não. Fornazieri avalia que as esquerdas estão passando por um período amplo de colapso tanto do ponto de vista das ideias, como do ponto de vista organizativo porque suas estruturas tradicionais perderam de vista que a juventude atual não é a mesma de décadas anteriores.

"A nova juventude não quer saber de partidos políticos, a [velha] esquerda não fez essa necessária discussão entre verticalidade e horizontalidade e como buscar um caminho do meio que articule essas duas dimensões. Se você fica só na verticalidade, cria estruturas rígidas ossificadas que a juventude não participa, e se você só fica na autonomia como, por exemplo, o movimento Passe Livre, você não cria potência, então você tem que buscar uma situação que você possa incluir participando e, ao mesmo tempo, potência e poder das organizações". 

E, segundo o pesquisador, esse cenário implica no desenvolvimento de uma nova pedagogia. "A esquerda não sabe ouvir e acolher. Por exemplo, por que há um sucesso das igrejas evangélicas neopentecostais? Porque elas acolhem e ouvem", explica Fornazieri alertando que no atual momento de desenvolvimento intelectual da juventude, se a pessoa percebe que não está sendo escutada em um determinado movimento, a tendência é ela se sentir manipulada. 

O diretor acadêmico da FESPSP avalia também que uma das lideranças que percebeu essa nova pedagogia, e está aplicando na periferia, é o líder do Movimento dos Trabalhadores sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, um dos entrevistados do livro 'A crise das esquerdas'. 

"Na periferia nós estamos vivendo uma efervescência de movimentos de várias naturezas, como cultural, de empreendedorismo, inclusive está se estruturando um partido da periferia que se chama Frente Favela Brasil, que nasce no Rio e está entrando em São Paulo", conta Fornazieri destacando que, esses novos grupos não querem mais saber dos partidos de esquerda como PT e PSOL, pela dificuldade que essas siglas possuem de dialogar com o público da periferia.


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