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A educação patriótica pode desenvolver nos alunos afetos de hostilidade em relação a outros países e culturas, aumentando o risco de conflitos entre eles. Pode provocar a limitação do pensamento crítico e da liberdade de expressão, incentivar a marginalização de grupos minoritários ou estrangeiros, acirrando as divisões sociais
Antônio Carlos Will Ludwig
A educação patriótica tem ganhado destaque em vários países ao redor do mundo, com diferentes abordagens e objetivos. Embora possa apresentar variações ela continua visando desenvolver o afeto patriótico, ou seja, o sentimento de amor, orgulho e devoção ao próprio país, associado a um apego emocional e cultural à pátria e acompanhado da valorização de suas tradições, história e conquistas. Comumente é expresso de forma simbólica através do culto à bandeira em seu hasteamento, ao canto do hino nacional e à participação em datas comemorativas. Esses rituais têm em vista criar um afeto de pertencimento e orgulho nacional, especialmente entre as novas gerações.
Sua origem está intimamente ligada à formação dos Estados nacionais nos séculos XVIII e XIX, quando a ideia de nação como uma comunidade política e cultural começou a se consolidar. Foi uma ferramenta crucial para promover a identidade nacional, a lealdade ao Estado e a coesão social. Tais Estados passaram a investir em sistemas educacionais públicos e centralizados, com o objetivo de difundir valores, símbolos e narrativas comuns. A língua nacional emergiu como um elemento central, sendo ensinada e promovida como um fator de unidade, muitas vezes substituindo dialetos regionais ou línguas minoritárias. A história nacional passou a ser ensinada de forma a glorificar o passado comum, heróis nacionais e eventos fundadores, criando um senso de continuidade e destino compartilhado. Em muitos países esteve ligada à preparação para o serviço militar e ao dever de defender a pátria.
Seu desenvolvimento ocorreu de modo diferenciado em diversos recantos do mundo. Na Alemanha, por exemplo, alguns marcos a caracterizaram. Em 1871, após a unificação, o governo ensaiou utilizá-la para consolidar a identidade nacional entre os diversos estados germânicos. A escola tornou-se um instrumento para difundir valores como lealdade ao Kaiser, orgulho da nação e respeito pelas instituições. O ensino de história foi centralizado para enfatizar a grandiosidade do passado germânico, glorificando figuras como Frederico, o Grande, e eventos como as Guerras de Unificação. Também incorporou valores castrenses, preparando os jovens para o serviço militar e enfatizando a disciplina e a obediência.
Durante a República de Weimar, entre 1919 e 1933 e logo após a derrota na Primeira Guerra Mundial e do estabelecimento do Tratado de Versalhes, a educação patriótica voltou-se para a promoção de valores democráticos e pacifistas, mas enfrentou resistência de setores conservadores e nacionalistas. Apareceram tensões políticas e ela tornou-se um campo de disputa entre visões democráticas e autoritárias, com grupos nacionalistas usando escolas e organizações juvenis para difundir ideias revisionistas e contra o referido tratado.
No transcurso do regime nazista que avançou até 1945, houve uma forte doutrinação ideológica. Sob o comando de Hitler tal educação transformou-se em um instrumento de propaganda e doutrinamento. O currículo escolar foi reformulado para enfatizar a superioridade da raça ariana, o culto ao Führer e o expansionismo territorial. Ela utilizou as organizações juvenis para incutir valores nazistas, como obediência, militarismo e antissemitismo, bem como promoveu uma visão distorcida da história e da ciência.
Após a derrota na Segunda Guerra Mundial, a Alemanha passou por um processo de desnazificação, que incluiu a reforma do sistema educacional para eliminar a influência nazista e promover valores democráticos. Durante a Guerra Fria, a Alemanha Ocidental, regida pela democracia, teve uma educação patriótica que divergiu da Alemanha Oriental, de cunho socialista. Na Alemanha Ocidental, enfatizou-se a democracia e a integração europeia, enquanto na Oriental, promoveu-se o socialismo e a lealdade ao Estado comunista. Após a reunificação, o foco passou a ser em valores como direitos humanos, democracia e memória histórica, incluindo a reflexão crítica sobre o passado nazista e a divisão do país.
O Japão, de modo semelhante à Alemanha, também apresentou alguns marcos distintivos. Na década de cinquenta do século passado, após o término da guerra e com a saída das forças aliadas lideradas pelos Estados Unidos começou um processo de democratização e de desmilitarização do país. A educação patriótica do passado, baseada na exacerbação do nacionalismo e na exaltação do militarismo passou a ser substituída pelos valores democráticos, enaltecimento da paz, nobilitação dos direitos humanos e eliminação da glorificação do passado imperial do ensino de história.
Nos anos 1980, com o país consolidado como potência econômica global, houve um ressurgimento do nacionalismo. O governo passou a promover uma visão mais positiva da história japonesa, o que gerou controvérsias, especialmente em relação ao tratamento de eventos como a Segunda Guerra Mundial. A educação patriótica ganhou espaço, com ênfase no orgulho nacional e na lealdade ao país. Na década seguinte ela apresentou um maior equilíbrio entre o orgulho nacional e a reflexão sobre os erros do passado.
Desde o início deste século o nacionalismo no Japão tem se intensificado, em parte devido a tensões regionais com a China e a Coreia do Norte, além de preocupações com a segurança nacional. O governo continuou promovendo uma educação patriótica que enfatiza o orgulho da cultura e da história japonesa, porém isso tem gerado debates sobre a possível minimização de atrocidades cometidas durante a guerra. A revisão de livros didáticos e a inclusão de símbolos nacionais, como a bandeira e o hino nacional, nas escolas têm sido temas polêmicos.
Mais importante do que narrar sua evolução no decorrer do tempo é evidenciar a situação atual em que se encontra. Quanto a ela é preciso dizer que diversos países passaram a instituí-la neste século vinte e um conforme os exemplos que se seguem dentre outros. Na Hungria ocorreu a introdução no currículo de mais conteúdos relacionados à história, à cultura, aos valores nacionais, aos feitos e as lutas do povo húngaro ao longo do tempo. Estabelecimentos educacionais celebram datas nacionais importantes, como o Dia Nacional da Hungria que marca a Revolução de 1848 e o Dia de Santo Estêvão que celebra o fundador do Estado húngaro. Essas celebrações incluem cerimônias, desfiles e atividades educativas que reforçam o orgulho nacional. Há também programas e atividades extraclasse como clubes de história, visitas a locais históricos e museus. A literatura e a música tradicionais húngaras são enfatizadas nas escolas, com estudantes aprendendo sobre grandes escritores, poetas e compositores húngaros. Isso ajuda a fortalecer a conexão dos jovens com sua herança cultural.
Na Polônia o ensino da história, especialmente eventos significativos como a Segunda Guerra Mundial, a resistência ao comunismo e figuras importantes, é enfatizado. A cultura polonesa, incluindo literatura, música e tradições, também é amplamente ensinada. Datas importantes, como o Dia da Independência e o Levante de Varsóvia, são comemoradas com eventos escolares e atividades que destacam a luta pela liberdade e pela soberania da nação. Muitos estabelecimentos de ensino têm programas específicos que incluem visitas a museus, monumentos históricos, locais de importância nacional e concursos de redação sobre arte e eventos autóctones. Essas atividades ajudam os alunos a se conectarem com a história e a cultura do país.
Na Índia, o currículo escolar inclui o estudo da história nacional, destacando a luta pela independência, os heróis e a rica herança cultural do país. São ensinados os valores constitucionais, os direitos e deveres dos cidadãos e a importância da democracia e da justiça social. Datas como o Dia da Independência e o Dia da República são celebrados com cerimônias pomposas, desfiles e discursos que reforçam o orgulho coletivo. Escolas organizam eventos especiais como o canto do hino nacional, apresentações culturais e debates sobre temas ufanistas. Excursões a monumentos, museus e locais de importância consagrada ajudam os estudantes a conectarem-se com a história e a cultura do país.
Ressalte-se que em diversos países a educação patriótica também se encontra presente nas escolas militares. No Irã está ligada à identidade islâmica e à lealdade ao sistema político. Nas Forças da Guarda Revolucionária é avultada a defesa da revolução islâmica. A Academia Kara Harp Okulu, da Turquia coloca em relevo o nacionalismo e a história da pátria. As Escolas Militares Camilo Cienfuegos de Cuba acomodam o foco na história revolucionária e na lealdade ao regime socialista. No Vietnã, a Academia Militar de Hanói realça a história da resistência contra invasores estrangeiros.
Vale salientar ainda a existência de regiões do mundo onde essa prática se mostra bem mais acentuada no momento atual. É o caso da China, onde, na educação básica, ocorre o aprendizado da história e da cultura chinesa. No currículo, há uma disciplina específica denominada Educação Moral e Política, que trata de temas éticos e de valores socialistas. Celebrações de hasteamento da bandeira, comemorações de feriados nacionais e visitas a museus e monumentos históricos são comuns. As escolas frequentemente organizam clubes e grupos que promovem o estudo da história e da cultura chinesa. Os professores recebem treinamento regular para integrar a educação patriótica em suas aulas de maneira eficaz. Reina a expectativa de que sejam modelos de comportamento patriótico e ético para os alunos. Em várias instituições escolares, existe um treinamento físico que se assemelha a exercícios militares. Grupos de alunos costumam participar de acampamentos e treinamentos militares durante as férias.
Nas universidades é obrigatória a inclusão de cursos sobre teoria política, história do Partido Comunista e do socialismo com características chinesas. Faculdades organizam palestras, debates e eventos culturais que celebram os sucessos do país e desenvolvem programas de liderança consoantes aos valores do partido. Em algumas disciplinas, especialmente nas Ciências Humanas, os alunos são incentivados a realizar estudos que estejam alinhadas com a ideologia do partido. A militarização é bem mais vultosa do que o ensino básico, pois muitas universidades exigem que os alunos participem de cursos castrenses que incluem treinamento físico, táticas militares e história militar da China. Outras organizam atividades que são próprias dos fardados como exercícios de comando sobre grupos, acampamentos e simulações de emergências. Há cursos sobre a política de defesa do país, a história do Exército Popular de Libertação e o papel das forças armadas. Algumas têm parcerias com instituições bélicas para a realização de pesquisas, palestras, seminários e programas de intercâmbio.
Na Coréia do Norte, os alunos do ensino básico são ensinados a venerar os governantes do país, especialmente Kim Il-sung, Kim Jong-il e Kim Jong-un. Eles aprendem sobre suas supostas realizações e são incentivados a seguir seus exemplos. Imagens e estátuas dos líderes estão presentes em todas as escolas. O currículo de história é fortemente focado na narrativa oficial do Partido dos Trabalhadores, destacando a luta revolucionária e a resistência contra invasores estrangeiros, especialmente o Japão e os Estados Unidos. A ideologia Juche, que enfatiza a autossuficiência e a independência, é um tema central. Há participação em atividades como visitas a locais históricos revolucionários, museus e monumentos. Também há envolvimento em eventos comemorativos e desfiles que celebram o regime e seus líderes, bem como é exigida a lealdade ao país, ao partido e aos dirigentes. Todos são ensinados a colocar os interesses da nação acima dos seus próprios e a se dedicar ao bem comum. Materiais de propaganda, como cartazes, filmes e livros, são amplamente utilizados nas escolas para reforçar mensagens patrióticas e ideológicas. O acesso a informações externas é rigorosamente controlado, e os alunos aprendem a desconfiar de fontes estrangeiras.
Todas estas manifestações também se encontram presentes no ensino superior. Além delas os universitários são encaminhados para projetos e trabalhos voluntários nas comunidades enquadrados como serviço à nação. A disciplina rigorosa e a conformidade são enfatizadas. Qualquer desvio da linha oficial pode resultar em punições severas, incluindo a expulsão da universidade e possíveis represálias contra a família do estudante.
Outrossim, a militarização se faz presente. Desde cedo, as crianças são submetidas a treinamento militar básico. Isso inclui exercícios de marcha e instruções sobre o uso de armas. Incentivos são empregados para levá-las a participarem de organizações juvenis como a União das Crianças da Coreia e a Liga da Juventude Socialista Kim Il-sung, que promovem atividades pertinentes à lealdade ao regime e à disciplina militar. Elas estudam a história militar da Coreia do Norte, as supostas vitórias do país em conflitos passados e a importância de defender a nação. As escolas organizam acampamentos de treinamento e exercícios de simulação de defesa. E no ensino de terceiro grau, os discentes também recebem treinamento militar, aprendem a história das Forças Armadas, se familiarizam com táticas de combate, incorporam a ideologia do regime, realizam exercícios físicos e concretizam encenações de defesa.
Israel é um país onde a educação patriótica também é extremamente valorizada, haja vista o empenho dos governantes em estabelecer uma forte identidade nacional e um senso de pertencimento desde a mais tenra idade. Logo nos primeiros anos escolares as crianças aprendem a história da nação, especialmente o movimento sionista, a criação do Estado e a ocorrência do Holocausto. Feriados nacionais como o dia da Independência, o dia de Jerusalém e o dia dos soldados caídos são comemorados através de ritos cerimoniais, cantos de hinos, palestras e debates. Excursões direcionadas ao Muro das Lamentações e ao Massada acontecem frequentemente. De modo semelhante ao já visto, a militarização se faz presente. A partir das séries iniciais, os meninos e meninas são expostos à ideia de que a defesa do país é uma responsabilidade coletiva. Eventos históricos, como guerras e conflitos, são ensinados de uma perspectiva que enfatiza a resiliência e a necessidade de proteger o Estado. Representantes das Forças de Defesa de Israel visitam frequentemente as escolas para dar palestras sobre a segurança nacional, o papel do exército e a importância do serviço militar. Alguns educandários do ensino médio oferecem programas que preparam os estudantes para este mister. Tais programas podem incluir treinamento físico, aulas sobre ética militar, visitas a bases castrenses e capacitação em liderança que simula aspectos da vida dos fardados.
A educação patriótica nas universidades de Israel é menos explícita e direta do que no ensino básico. Entretanto, os universitários estudam o movimento sionista, o conflito israelense-palestino e a luta pela independência. Eventos e cerimônias sobre o dia da independência e o dia da lembrança incluem discursos, apresentações culturais e homenagens aos soldados mortos em combate. Também se faz presente a militarização, porém de maneira indireta e de forma mais tênue, haja vista que muitas delas estão envolvidas em pesquisas de ponta nas áreas de tecnologia, segurança cibernética, agricultura, medicina e estratégia militar que têm implicações diretas para o desenvolvimento e a defesa do país. Em alguns casos, veteranos organizam grupos ou palestras que discutem sua experiência no exército e o papel das Forças Armadas na sociedade israelense. Integrantes das Forças Armadas frequentemente participam de eventos universitários por meio de palestras, seminários e conferências relacionados à segurança nacional, estratégia militar e o papel do exército no âmbito social.
Cabe ressaltar ainda a manifestação do patriotismo nos Estados Unidos da América do Norte, pois é considerado o país mais importante do mundo devido sua pujante economia, poder bélico e influência cultural e política. Tradicional e notório se exprime através de diversos eventos coletivos, tais como os que se seguem. A celebração do dia da independência onde se destacam os desfiles nas ruas e o ritual da leitura pública da Declaração de Independência, recitação do juramento de lealdade à bandeira, visitas a monumentos e sítios históricos, comemoração do dia de ação de graças, canções que exaltam particularidades nacionais e solenidades homenageadoras de militares que serviram e morreram pelo país. Algumas dessas manifestações são replicadas nas escolas e seus currículos acrescentam estudos pertinentes à Revolução Americana, à Constituição Federal, aos personagens históricos, aos direitos e deveres dos cidadãos e ao funcionamento da democracia. O reforço ao patriotismo é viabilizado pela militarização através de um programa patrocinado pelas Forças Armadas que oferece às escolas treinamento militar básico, acolhimento de recrutadores em salas de aula e recepção de equipamento bélico excedente.
Com a volta de Trump ao governo, o sentimento patriótico dos norte-americanos poderá ser fortalecido devido principalmente à sua retórica nacionalista, pois costuma exaltar o país como uma nação excepcional e superior às demais. Frases como ‘Make America Great Again e America First’ são centrais em seus discursos. Essa postura do presidente ajuda na compreensão da ostensividade da educação patriótica em muitos recantos do planeta. Observe-se que tal entendimento só pode ser obtido com base no pressuposto de que sua visibilidade é decorrência do explícito patriotismo no mundo. Sem dúvida essa aparatosa comparência deve levar em conta fatores internos. O patriotismo israelense, por exemplo, se encontra vinculado à percepção de que Israel que está cercado de inimigos por todos os lados. O patriotismo norte coreano se mostra atrelado à concepção de sobrevivência do país frente à Coréia do Sul que tem os Estados Unidos e o Japão como aliados e ao empenho em garantir a legitimidade do regime político.
Entretanto, o fator externo mais relevante diz respeito ao avanço do nacionalismo do qual Trump, o zeloso patriota, é um fanático seguidor. Vale recordar que o nacionalismo é uma ideologia surgida no século dezenove a qual influenciou o desenvolvimento dos Estados com a reorganização das fronteiras entre eles. Embora traga em seu bojo aspectos positivos como o fortalecimento da coesão social, a promoção da independência e a preservação das culturas, ele pode provocar conflitos, propagar a xenofobia, defender a exclusão de minorias, causar o imperialismo, isto é, uma política de expansão de uma nação sobre outras por meios econômicos, militares e políticos. Veja-se que, em suas diversas formas ele foi o fator central nas duas conflagrações mundiais. Na Primeira Guerra, ele alimentou rivalidades e alianças que levaram ao entrevero. Na Segunda Guerra, assumiu um caráter mais extremo e expansionista, especialmente com o surgimento de regimes fascistas. Em ambos os casos, sua exacerbação contribuiu significativamente para a escalada de tensões e a eclosão dos prélios globais.
A avultante presença do nacionalismo nos dias que correm, tem muito a ver com o andamento da globalização neoliberal. Há uma contradição central entre ambos, pois a globalização gira em torno da integração entre países em diversos setores, enquanto o nacionalismo enfatiza a soberania deles e a defesa de seus interesses. Ao fazer avançar o processo de interconexão, a globalização tem exigido que os países abram mão de seu controle sobre políticas econômicas, comerciais e até culturais. Ela pode beneficiar alguns setores e regiões, mas é capaz de marginalizar outros, especialmente trabalhadores de indústrias tradicionais que perdem empregos para países com mão de obra mais barata. A homogeneização cultural, muitas vezes associada à globalização, é vista como uma ameaça às tradições e identidades locais. O Brexit, isto é, a saída do reino Unido da União Europeia foi estimulada por sentimentos nacionalistas que criticavam a perda de controle sobre políticas migratórias e econômicas. E as vitórias eleitorais de Trump nos Estados Unidos refletiram uma reação nacionalista à globalização.
O nacionalismo, em muitos casos, surge como uma resposta à percepção de que a globalização tem provocado injustiças quanto à distribuição de benefícios. E isto tem induzido o aparecimento de reações de resistência. Governos atuais como o da Hungria e da Polônia adotaram políticas que limitam a influência de organizações internacionais e defendem valores tradicionais. Na Índia, Narendra Modi busca fortalecer a identidade cultural e religiosa do país. Porém, a relação entre globalização e nacionalismo não é simplesmente de oposição. Existem locais onde predomina uma coexistência paradoxal, haja vista existência de países que adotam políticas protecionistas enquanto continuam dependentes do comércio global e de cadeias de suprimentos internacionais. Outros costumam usar plataformas globais, como redes sociais e meios de comunicação internacionais, para promover suas agendas. E há aqueles que abraçam aspectos da globalização como tecnologia e investimentos estrangeiros, enquanto rejeitam outros como imigração e integração política. A título de ilustração citem-se os casos da China, que combina uma economia globalizada com um governo fortemente nacionalista e autoritário e a Rússia, sob Vladimir Putin, que usa sua influência global para promover uma agenda nacionalista e expansionista.
A vistosa educação patriótica, reflexo do avanço do patriotismo em associação à ideologia nacionalista se mostra temerária. Ela pode desenvolver nos alunos afetos de hostilidade em relação a outros países e culturas, aumentando o risco de conflitos entre eles. Pode provocar a limitação do pensamento crítico e da liberdade de expressão, incentivar a marginalização de grupos minoritários ou estrangeiros, acirrando as divisões sociais. Também pode ser usada para justificar medidas autoritárias e suprimir dissidências. Portanto, é totalmente avessa ao regime democrático e à convivência pacífica e colaborativa entre povos dos inúmeros recantos do planeta. Assim sendo, esforços precisam ser feitos para minimizá-la e eliminá-la, bem como deve ser concretizado um forte empenho para instituir e fortalecer a educação cívica pois ela além de consolidar a democracia estimula o engajamento cívico ou o exercício da cidadania ativa nos níveis local, regional, estadual, nacional e internacional.
Antônio Carlos Will Ludwig é professor aposentado da Academia da Força Aérea, pós-doutorado em educação pela USP e autor de Democracia e Ensino Militar (Cortez) e A Reforma do Ensino Médio e a Formação Para a Cidadania.
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