domingo, 4 de junho de 2017

A miséria de Doria


João Doria visita Cracolândia após operação que lhe rendeu críticas de grande maioria de movimentos sociais, da Defensoria Pública, do Ministério Público, organizações de classe médica e psicóloga, além de seu próprio secretariado. Foto: Eduardo Ogata/Secom

Patrick Mariano/Advogado

Para ser aceita na alta classe, ter sucesso, crédito e moradia, Lacey Pound é uma mulher que tenta desesperadamente conseguir curtidas em seu perfil de uma rede social. Lacey é uma personagem do episódio “Perdedor”, da série da televisão britânica Black Mirror. 

O drama e a ânsia de Lacey é uma assustadora crítica a quem faz de tudo para ter uma imagem “fake” na vida online. É estarrecedor assistir até onde pode ir a desconstrução do ser humano e da própria autoestima para se fazer aceito por um conjunto de regras sobre as quais jamais terá qualquer influência.
Para quem ainda não viu, Black Mirror explora e faz uma perturbadora crítica da sociedade moderna. Notadamente, das consequências das novas tecnologias e do aprisionamento das pessoas por elas.


O prefeito de São Paulo João Doria é um personagem que se encaixa perfeitamente no roteiro da série britânica. O drama de Lacey se assemelha ao de Doria, mas as consequências das atitudes de um e de outro são completamente diferentes. Foto: Lacey Pound, personagem da série Black Mirror.O prefeito de São Paulo João Doria é um personagem que se encaixa perfeitamente no roteiro da série britânica. O drama de Lacey se assemelha ao de Doria, mas as consequências das atitudes de um e de outro são completamente diferentes. Lacey não é responsável por administrar as contradições da maior cidade da América Latina, nem mesmo suas decisões impactam na vida de milhões de pessoas.

João Doria vive e se alimenta de uma bolha de ilusões e mentiras construídas no mundo virtual e nos meios de comunicação de massa. Suas atitudes e decisões são todas pensadas para receber curtidas e compartilhamentos em busca da construção no imaginário popular de um personagem inexiste, impossível. 

Tento imaginar o que se passa em sua cabeça. Um dia, vou de roupa de gari e posto foto sorridente. No outro, humilho e demito uma funcionária, gravo a cena e a torno pública. O dia amanhece e penso: o que deveria fazer para bombar nas redes e nos meios de comunicação? Já sei, vou mandar apagar murais de arte urbana e pintar tudo de cinza.

Doria tenta suprir um profundo vazio político existencial com ações de marketing as mais tacanhas. Não se sabe sua opinião sobre os problemas brasileiros, quais suas referências históricas, sociológicas e até mesmo políticas. Política que, aliás, nega. A única ação concreta que apresentou foi a de entregar nacos do patrimônio público aos interesses privados e pedir doações a empresas, uma estranha e questionável gestão que agride a altivez, ética e a moralidade pública. Tudo ia bem enquanto o mundo virtual desse conta da completude do real.

Doria tenta suprir um profundo vazio político existencial com ações de marketing as mais tacanhas. Não se sabe sua opinião sobre os problemas brasileiros, quais suas referências históricas, sociológicas e até mesmo políticas. Foto: Cesar Ogata / SECOM

Cada vez que o personagem tenta sair do mundo virtual, infelizmente toma decisões que tem implicado em consequências de maior gravidade. Num desses lampejos, mandou aumentar a velocidade das vias da cidade (seu lema é acelera São Paulo). Os resultados foram mais acidentes, mortes e lesões. Numa matéria do Bom Dia Brasil, foi denunciado que o socorro a vítimas de acidentes nas marginas está demorando mais de 1 hora. Mas, nada disso importa ao nosso personagem.

Sua mais recente tentativa de penetrar na realidade foi catastrófica. Sobre centenas de homens, mulheres, jovens e crianças sob os quais incide o drama da dependência química, da miséria e da falta de perspectiva, lançou centenas de policiais, bombas e toda a sorte de violência. Aqueles cidadãos e cidadãs desde então vagam pelas ruas da cidade não muito distante de onde viviam. 

Noutro arroubo autoritário tentou demolir um prédio com dezenas de pessoas dentro. Pouco importa se naquele prédio havia seres humanos que foram atingidos pelos escombros causados pelas suas máquinas, sua referência é o mundo virtual, a construção de ilusões. 

Quando se dá conta de que, ao se expor no mundo real, nele precisa administrar dramas e problemas humanos e isso às vezes leva a perda de “likes”, se recolhe ou coloca um avatar no lugar. Ideal seria se pudesse apagar um post do qual se arrependeu. 

Ao ser criticado quase que unanimemente pela trágica intervenção na Cracolândia, tentou outro golpe que foi o de determinar a internação compulsória daquelas desafortunadas pessoas sobre as quais havia jogado bombas e destruído as paredes da casa. Teve que assistir ao Poder Judiciário paulista lhe dar lições de cidadania e sobre a Constituição da República.

Lacey Pound, a personagem da série, termina por se dar conta que aquele mundo que imaginava existir, na verdade, era uma quimera cruel e dilacerante. Doria precisa continuar no mundo virtual alimentando ilusões. O trágico é saber que para cada flerte seu com a realidade, milhares de pessoas sofrem com a insensibilidade e crueldade de desastradas e cruéis decisões. Se a realidade do contato com a cidade que deveria administrar é insuportável para Doria, a recíproca tem sido verdadeira.
Patrick Mariano é escritor. Junto a Marcelo Semer, Rubens Casara, Márcio Sotelo Felippe e Giane Ambrósio Álvares, assina a coluna ContraCorrentes, publicada todo sábado no Justificando.

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