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quinta-feira, 19 de julho de 2018

A entrega da Embraer: uma (má) novela geopolítica

A entrega da Embraer: uma (má) novela geopolítica
por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais 

Somos levados a crer que a empresa que resultar do desmonte da Embraer e que herdará o setor de defesa continuará nacional, não? Pelo contrário

Nos termos propostos, só Boeing e acionistas ganham, e o Brasil perde tudo

Por Demétrio G. C. de Toledo

Um dos aspectos mais intrigantes das negociações para a venda da Embraer à Boeing é o modo como os personagens desta trama são apresentados ao público. Segundo a narrativa que vai prevalecendo na grande mídia, três são os personagens envolvidos: Embraer, Boeing e o governo brasileiro, este por conta de sua golden share.

O personagem central deste que é um dos mais importantes e ousados lances da geopolítica contemporânea, no entanto, até agora se mantém à sombra, longe da ribalta. Trata-se, não é difícil de concluir, do governo dos EUA, que age coordenadamente com a Boeing. Pudera: é preciso manter as aparências e fazer tudo parecer uma simples transação de mercado, e não um ataque econômico de um país a outro.
O memorando de entendimento divulgado no dia 5 de julho de 2018 propõe a formação de uma joint venture que incorporará integralmente o negócio de aviação comercial da Embraer. A nova empresa terá uma composição acionária de 80% para a Boeing e magros 20% para a Embraer.

De acordo com os defensores da transação, se a Embraer não se desfizer do negócio de aviação comercial, a Airbus, que acaba de comprar o programa CSeries da Bombardier, engolirá a empresa brasileira, pois esta seria incapaz de competir com a gigante europeia.

Colocado nestes termos, parece até que é um favor que nos fazem desnacionalizando a Embraer e destruindo mais de sete décadas de esforço para construir a indústria aeronáutica brasileira.

Haveria, no entanto, outras soluções para a Embraer enfrentar a concorrência da Airbus aliando-se à Boeing, sem que isso resultasse na sua venda: desenvolvimento conjunto de componentes e produtos finais, comunalidade de cockpit (cabine de comando e seus instrumentos) entre os aviões das empresas, compartilhamento de infraestrutura de pesquisa e desenvolvimento. Nos termos propostos, só Boeing e acionistas ganham, e o Brasil perde tudo.

O governo brasileiro, dizem, estaria assegurando os interesses nacionais por meio da preservação do setor de defesa em mãos nacionais naquilo que sobrar da Embraer após ela entregar sua mais valiosa divisão de negócios à Boeing, seu setor de aviação comercial.

É aqui que o diabo se esconde: empresa alguma de aviação consegue se manter apenas com seu setor de defesa, pois este depende exclusivamente de compras governamentais, esparsas e de negociação muito complexa. Na indústria aeronáutica atual, a sustentabilidade do setor de defesa é obtida por meio das sinergias geradas pelos produtos civis.

De tal modo que é possível dizer que, uma vez separados os setores de aviação comercial e de defesa da Embraer, este se tornará imediatamente insustentável financeira, tecnológica e comercialmente. Não é difícil vislumbrar a solução para o “insustentável” negócio de defesa da Embraer em um futuro muito próximo: a aquisição, pela Boeing (que terá 20% de participação em outra joint venture formada para comercialização do KC-390, cabendo à Embraer 80% do negócio), da combalida empresa.

As investidas do governo estadunidense sobre a Embraer por meio da Boeing não são de hoje. Os EUA chegaram muito próximos da empresa brasileira quando, ao final do primeiro mandato de Dilma, o caça da Boeing surgiu como provável escolhido pelo programa de aquisição de caças do Brasil.

A revelação da espionagem da presidenta Dilma e da Petrobras pela NSA, no entanto, atrapalhou os planos dos EUA e da Boeing de fincarem pé na Embraer por meio dos acordos de transferência de tecnologia que já vinham sendo discutidos entre a empresa brasileira e a estadunidense como contrapartida à aquisição dos caças da Boeing.

Naquele momento, a probabilidade da Boeing engolir a Embraer parecia ser muito baixa, uma vez que a nenhum governo democraticamente eleito e gozando da legitimidade política advinda da necessidade de prestar contas ao povo ocorreria se desfazer de uma empresa como a Embraer.

O Golpe de 2016 abriu uma janela de oportunidade para e entrega da Embraer à Boeing e para a destruição da indústria aeronáutica brasileira. A compra do projeto CSeries da Bombardier pela Airbus deu o empurrão que faltava para que os EUA deslanchassem seu plano cuidadosamente construído desde 2011, quando a Boeing nomeou Donna Hrinak presidenta da Boeing Brazil.

Funcionária de carreira do serviço diplomático estadunidense, Hrinak foi embaixadora dos EUA em vários países latino-americanos, entre os quais o Brasil, nos anos de 2002 a 2004. Hrinak é o ponto de contato entre Boeing e Departamento de Estado dos EUA, entre a transação de mercado e o ataque econômico dos EUA ao Brasil – e, claro, destes com o governo brasileiro, que é, no fim das contas, quem consente na entrega da Embraer.

Quando o negócio entre Airbus e Bombardier foi anunciado, a Boeing e o governo dos EUA puseram em marcha a fase final de seu plano de desmonte da indústria aeronáutica brasileira, anunciando a intenção de comprar a Embraer de “porteira fechada”.

Diante da resistência do governo brasileiro em entregar junto o setor de defesa, Boeing e governo estadunidense reformularam a proposta, disfarçando o interesse pelo setor de defesa, e apresentaram o memorando de entendimento para a compra da aviação comercial da Embraer e a manutenção do setor de defesa em mãos nacionais. O memorando foi muito bem recebido pelo governo brasileiro, que alegou que a proposta mantinha intacto o setor de defesa.

Somos levados a crer que a empresa que resultar do desmonte da Embraer e que herdar o setor de defesa continuará, nacional, firme e forte, não? Pelo contrário, esta será a primeira a sucumbir. O sucesso da Embraer se deve à existência de um importante setor de aviação comercial combinado a um setor de defesa.

Ou seja, tão logo a Embraer perca sua aviação comercial, o setor de defesa estará fadado ao fracasso – ou à venda para a Boeing! E para isto a empresa e o governo dos EUA já deram o primeiro passo: como vimos acima, o memorando de entendimento para entrega da Embraer à Boeing prevê uma segunda joint venture para comercialização do cargueiro militar KC-390.

Que forças levam o atual governo brasileiro, ilegítimo, antipopular e antinacional, a cometer tamanho descalabro? Capitais chineses são enxotados dos EUA ao demonstrarem interesse por empresas de setores estratégicos dos EUA, como se viu recentemente com a tentativa de compra da Qualcomm, barrada por uma ordem executiva do presidente dos EUA, Donald Trump.

Enquanto isso, no Brasil, governo, grande mídia, financistas e os inocentes úteis de sempre aplaudem a entrega de uma das maiores realizações tecnológico-industriais da história brasileira.

Por que, afinal, o atual governo brasileiro é tão incapaz de agir de modo minimamente comprometido com o interesse nacional? Esperemos que as eleições presidenciais restabeleçam a democracia no Brasil e que a entrega da Embraer – e tantos outros absurdos deste desgoverno – seja desfeita.


*Demétrio G. C. de Toledo é Professor de Relações Internacionais da UFABC e convidado do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI

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