quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Atendimento médico em dois tempos



Nonato Menezes

O consultório era muito simples. Na recepção, apenas um banco forrado e algumas cadeiras de madeira. Nada de revistas ou jornais para serem folheados durante a espera para a consulta. Moldura com diploma na parede, também não tinha. Era no tempo que Conselho não fazia falta, nem atrapalhava.

Esta é parte do roteiro de uma história que meu pai contava sobre um médico respeitadíssimo e muito procurado no povoado onde morou. Era uma espécie de clínico, na denominação de hoje. Quem quer que o procurasse com algum sintoma, fosse criança, mulher ou idoso, se submetia ao mesmo procedimento, seguido do receituário para cura, quase sempre preciso.


Sua técnica de consulta era muito simples, para os padrões de hoje, pois consistia apenas em dedilhar os pulsos do paciente por alguns minutos – naquela época não era cliente, era paciente mesmo -, para, dependendo da pulsação, identificar a enfermidade. Esta é a técnica médica milenar chinesa, conhecida como Pulsologia.

Acontece que o médico tinha uma jornada de trabalho pesada. Não batia cartão, também não era rigoroso no horário de atendimento. Em situação de emergência até o dia descanso era comprometido.

Por seguir um ritmo de trabalho muito intenso e cansativo, talvez para superar o desgaste, costumava tomar umas doses de cachaça para relaxar. Às vezes até exagerava, ficando visivelmente embriagado.

Foi numa dessas vezes que trocou o pulso de um doente pelo seu. De tão embriagado, mas com a precisão de sempre, sugeriu ao paciente que fosse para casa, tomasse bastante água e procurasse descansar o máximo possível, pois nada de mais sério ele tinha, senão estar acometido de forte estado de embriaguez.  E que, se precisasse, deveria voltar no dia seguinte, pois ele mesmo estava, naquele momento, precisando de descanso.

A segunda história.

Aconteceu comigo no ano de 2002. Assustado com um leve incômodo na respiração, recorri a uma clínica particular para uma consulta que havia marcado no dia anterior.

Fui pontual na chegada e vinte minutos depois fui chamado para o atendimento. O médico deveria ter entre trinta e quarenta anos. Conversador, foi logo perguntando em que eu trabalhava. Respondi que era professor de ensino médio na Rede Pública e que naquele momento trabalhava quarenta horas por semana, tinha quinze turmas, com total de seiscentos e vinte oito alunos.

Com ares de assustado, me deu pêsames e rindo perguntou o que eu estava sentindo.

Relatei sobre o incômodo na respiração. Ele sugeriu que eu deitasse numa maca e com o estetoscópio no meu peito, pediu que inspirasse e respirasse fundo. Em menos de um minuto pediu que levantasse e voltasse a sentar-me na cadeira.

Enquanto ele preenchia o pedido de exames, foi dizendo que os batimentos cardíacos estavam normais, e que, aparentemente, não havia nenhum problema pulmonar, e, se necessário, após os exames me encaminharia para outros procedimentos.

Como ele brincou com os seus “pêsames”, aproveitei e perguntei o que leva os médicos atuais a não tocarem mais nos “pacientes”. 

Ele foi direto.

– Professor, hoje nós saímos da Universidade peritos em operar máquinas. Aqui, nós aviamos receitas.

Fiquei calado e lembrei-me da história do meu pai.

Foi aí que atentei para algo de bom nesse processo de mudança: as máquinas não bebem.


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